Não há melhor no 12º ano!
Como foi em Economia?
23/04/2013
18/02/2013
Valores dos britânicos e dos americanos
Fonte: Videographics/The Economist
18/01/2013
Sociologia do Corpo como linha de pesquisa
Para treinar a problematização e a crítica da sociedade que nos rodeia, conscientes da necessidade de rigor científico, será conveniente abordar os temas de trabalho seguindo uma linha de pesquisa comum a todos grupos, que lhes confira alguma unidade teórica, estimulando o debate e orientando a pesquisa. O “corpo” encontra-se presente em todas as interacções sociais, embora raramente seja explicitamente referido em Sociologia. Assim, este apresenta-se como uma ferramenta útil para problematizar e repensar as relações sociais, que através do mesmo se procurarão objectivar, impondo disciplina metodológica à imaginação sociológica que se pretende simultaneamente fértil e disciplinada.
A Sociologia do Corpo (BRETON) constitui-se como uma perspectiva dedicada à compreensão dos fenómenos humanos, sociais e culturais. A sua adopção como linha de pesquisa significa a mobilização desta teoria para a descoberta de um mundo simbólico, objecto de representações e imaginários. Apresentam-se abaixo alguns aspectos desenvolvidos nesta obra.
As ambiguidades do referente “corpo”. De que “corpo” se trata? – Qualquer questionamento sobre o corpo requer a enunciação, elucidação, construção daquilo que se subentende. O corpo não é uma natureza. Não se vêem só corpos. O que vê são homens e mulheres. Os sociólogos terão de construir a sua perspectiva de observação, conscientes de que também o referente se encontra envolvido num véu de representações (Breton, 1992:24).
Representações que constroem o “corpo” (idem:26):
- Anatomia, conhecimento médico. Observam-no como realidade objectiva, independente do homem, ie., um mecanismo com os órgãos e funções. Os médicos especialistas tratam ainda apenas de subconjunto destes, organizados em “aparelhos”;
- A cultura popular identifica o corpo com a carne, a região visível, uma pele que transporta outros componentes;
- A pessoa. Quando mostramos o que o corpo faz, capacidades e seus limites do homem, em interacção com os outros e a natureza.
Nas sociedades ocidentais a representação dominante do corpo é a da medicina, caracterizando uma sociedade individualista que separa o corpo da pessoa. A palavra “corpo” nem é aplicada exclusivamente a humanos, podendo referir-se a qualquer estrutura: “Tudo o que ocupa espaço e constitui unidade orgânica ou inorgânica” (DLPO).
O corpo é uma falsa evidência, não é um dado inequívoco, mas uma construção social e cultural. Nas sociedades ocidentais o destaque dos indivíduos relativamente à comunidade resulta da sua transformação social e cultural, que o coloca em evidência para o distinguir dos outros, observando Durkheim que “é preciso um factor de individualização, sendo o corpo que desempenha esse papel”.
O corpo é uma estrutura simbólica (idem:29). O conhecimento biomédico é a sua representação oficial, mas não recolhe a unanimidade nem dos seus especialistas, pois estes frequentemente indicam “medicinas paralelas” ou “alternativas”, visando o alívio do sofrimento físico: o ioga, a medicina chinesa, a acupuntura, etc. que transportam outras representações do corpo. Compete à Sociologia compreender e explicar esta estrutura simbólica, descrevendo as suas representações, os imaginários, os desempenhos e os limites infinitamente variáveis conforme as sociedades.
O corpo da modernidade, estudado pela Sociologia, resulta do advento do individualismo nas sociedades capitalistas, que identifica o corpo como um componente autónomo da própria pessoa. Este é o elemento que estabelece a fronteira entre o espaço social e o espaço de soberania individual. Nas sociedades tradicionais, de dominante comunitária, na qual o estatuto da pessoa se subordina ao colectivo, diluindo-se no grupo, esta cisão não faz sentido.
O corpo não existe em estado natural, sempre está compreendido na trama social de sentidos, mesmo em suas manifestações aparentes de insurreição, quando provisoriamente uma ruptura se instala na transparência da relação física com o mundo do actor (dor, doença, comportamento não habitual, etc.).
A tarefa da Sociologia (idem:32)
A Sociologia, cujas pesquisas têm no corpo seu fio condutor, não deve nunca esquecer da ambiguidade e da efemeridade de seu objecto, a qualidade que possui de incentivar questionamentos muito mais que de constituir fonte de certezas. Deve sempre estudar o comportamento do actor em função da situação, para não ceder ao dualismo que invalidaria a análise. O significante "corpo" funciona, para a sociologia, como um mito no sentido de G. Sorel: ele cristaliza o imaginário social, provoca as práticas e as análises que continuam a explicar sua legitimidade, a provar de maneira incontestável sua realidade. Mas o sociólogo não esquece que ele próprio vive num mundo de categorias mentais inseridas na trama da história social, e, de modo geral, na trama da história das ciências.
De modo mais específico, o qualificativo "corpo" que limita o campo dessa sociologia é uma "forma simples" no sentido de André Jolles: "Todas as vezes que uma actividade do espírito conduz a multiplicidade e a diversidade do ser e dos acontecimentos a cristalizar-se para adquirir uma certa forma, todas as vezes que essa diversidade, percebida pela língua em seus elementos primeiros e indivisíveis e transformada em produção da linguagem, puder ao mesmo tempo querer dizer e significar o ser e o acontecimento, diremos que ocorre o nascimento de uma forma simples" cujas actualizações sociais e culturais é preciso conhecer.
O “corpo" é uma linha de pesquisa e não uma realidade em si. É preciso então marcar o distanciamento da sociologia de Durkheim, segundo a qual o corpo é estritamente redutível ao biológico. O conhecimento biomédico representa uma espécie de verdade universal do corpo que uma parte das sociedades humanas não conseguiu adquirir, como provam os numerosos curandeiros das nossas tradições rurais. Etnocentrismo elementar ao qual cedem, no entanto, numerosos pesquisadores.
A independência do discurso sociológico (idem:34)
A medicina e a biologia propõem um discurso sobre o corpo aparentemente irrefutável, culturalmente legitimo. Mas, tanto uma quanto a outra compartilham um conhecimento de outra categoria. Detêm, de certa forma, um conhecimento "oficial", ensinado na universidade, isso quer dizer que visam à universalidade e sustentam as práticas legítimas das instituições médicas ou de pesquisa. No entanto, esse monopólio da "verdade" é disputado pelas medicinas que repousam sobre as tradições populares, variáveis conforme as culturas, ou sobre outras tradições do conhecimento (acupuntura, homeopatia, quiropraxia, medicina ayuvérdica, etc.) que por sua vez se apoiam em outras representações do corpo humano.
O sociólogo não pode então tomar partido nesses conflitos de legitimidade ou nessas coexistências paradoxais que lembram justamente o carácter sempre social e cultural das obras humanas; antes de tudo, tem como tarefa tornar perceptíveis os imaginários do corpo presentes na medicina moderna ou nas outras medicinas; assim como apreender os procedimentos variados usados nas curas e compreender as virtudes apregoadas.
A sociologia aplicada ao corpo distancia-se das asserções médicas que desprezam as dimensões pessoal, social e cultural nas percepções do corpo. Tudo se passa como se a representação anatomofisiológica tivesse que escapar da história para entregar-se ao absoluto.
Uma Sociologia do corpo? (idem:35)
Uma "sociologia do corpo", lúcida em relação às ameaças que pesam sobre ela, mas que ao afastá-las descobre um continente a ser pesquisado, quase inexplorado, onde a inteligência e a imaginação sociológica do pesquisador se podem desenvolver. Essa via central da pesquisa pode, por outro lado, alimentar-se avidamente das análises levadas a cabo em outros lugares e para outras finalidades.
A Sociologia do Corpo (BRETON) constitui-se como uma perspectiva dedicada à compreensão dos fenómenos humanos, sociais e culturais. A sua adopção como linha de pesquisa significa a mobilização desta teoria para a descoberta de um mundo simbólico, objecto de representações e imaginários. Apresentam-se abaixo alguns aspectos desenvolvidos nesta obra.
As ambiguidades do referente “corpo”. De que “corpo” se trata? – Qualquer questionamento sobre o corpo requer a enunciação, elucidação, construção daquilo que se subentende. O corpo não é uma natureza. Não se vêem só corpos. O que vê são homens e mulheres. Os sociólogos terão de construir a sua perspectiva de observação, conscientes de que também o referente se encontra envolvido num véu de representações (Breton, 1992:24).
Representações que constroem o “corpo” (idem:26):
- Anatomia, conhecimento médico. Observam-no como realidade objectiva, independente do homem, ie., um mecanismo com os órgãos e funções. Os médicos especialistas tratam ainda apenas de subconjunto destes, organizados em “aparelhos”;
- A cultura popular identifica o corpo com a carne, a região visível, uma pele que transporta outros componentes;
- A pessoa. Quando mostramos o que o corpo faz, capacidades e seus limites do homem, em interacção com os outros e a natureza.
Nas sociedades ocidentais a representação dominante do corpo é a da medicina, caracterizando uma sociedade individualista que separa o corpo da pessoa. A palavra “corpo” nem é aplicada exclusivamente a humanos, podendo referir-se a qualquer estrutura: “Tudo o que ocupa espaço e constitui unidade orgânica ou inorgânica” (DLPO).
O corpo é uma falsa evidência, não é um dado inequívoco, mas uma construção social e cultural. Nas sociedades ocidentais o destaque dos indivíduos relativamente à comunidade resulta da sua transformação social e cultural, que o coloca em evidência para o distinguir dos outros, observando Durkheim que “é preciso um factor de individualização, sendo o corpo que desempenha esse papel”.
O corpo é uma estrutura simbólica (idem:29). O conhecimento biomédico é a sua representação oficial, mas não recolhe a unanimidade nem dos seus especialistas, pois estes frequentemente indicam “medicinas paralelas” ou “alternativas”, visando o alívio do sofrimento físico: o ioga, a medicina chinesa, a acupuntura, etc. que transportam outras representações do corpo. Compete à Sociologia compreender e explicar esta estrutura simbólica, descrevendo as suas representações, os imaginários, os desempenhos e os limites infinitamente variáveis conforme as sociedades.
O corpo da modernidade, estudado pela Sociologia, resulta do advento do individualismo nas sociedades capitalistas, que identifica o corpo como um componente autónomo da própria pessoa. Este é o elemento que estabelece a fronteira entre o espaço social e o espaço de soberania individual. Nas sociedades tradicionais, de dominante comunitária, na qual o estatuto da pessoa se subordina ao colectivo, diluindo-se no grupo, esta cisão não faz sentido.
O corpo não existe em estado natural, sempre está compreendido na trama social de sentidos, mesmo em suas manifestações aparentes de insurreição, quando provisoriamente uma ruptura se instala na transparência da relação física com o mundo do actor (dor, doença, comportamento não habitual, etc.).
A tarefa da Sociologia (idem:32)
A Sociologia, cujas pesquisas têm no corpo seu fio condutor, não deve nunca esquecer da ambiguidade e da efemeridade de seu objecto, a qualidade que possui de incentivar questionamentos muito mais que de constituir fonte de certezas. Deve sempre estudar o comportamento do actor em função da situação, para não ceder ao dualismo que invalidaria a análise. O significante "corpo" funciona, para a sociologia, como um mito no sentido de G. Sorel: ele cristaliza o imaginário social, provoca as práticas e as análises que continuam a explicar sua legitimidade, a provar de maneira incontestável sua realidade. Mas o sociólogo não esquece que ele próprio vive num mundo de categorias mentais inseridas na trama da história social, e, de modo geral, na trama da história das ciências.
De modo mais específico, o qualificativo "corpo" que limita o campo dessa sociologia é uma "forma simples" no sentido de André Jolles: "Todas as vezes que uma actividade do espírito conduz a multiplicidade e a diversidade do ser e dos acontecimentos a cristalizar-se para adquirir uma certa forma, todas as vezes que essa diversidade, percebida pela língua em seus elementos primeiros e indivisíveis e transformada em produção da linguagem, puder ao mesmo tempo querer dizer e significar o ser e o acontecimento, diremos que ocorre o nascimento de uma forma simples" cujas actualizações sociais e culturais é preciso conhecer.
O “corpo" é uma linha de pesquisa e não uma realidade em si. É preciso então marcar o distanciamento da sociologia de Durkheim, segundo a qual o corpo é estritamente redutível ao biológico. O conhecimento biomédico representa uma espécie de verdade universal do corpo que uma parte das sociedades humanas não conseguiu adquirir, como provam os numerosos curandeiros das nossas tradições rurais. Etnocentrismo elementar ao qual cedem, no entanto, numerosos pesquisadores.
A independência do discurso sociológico (idem:34)
A medicina e a biologia propõem um discurso sobre o corpo aparentemente irrefutável, culturalmente legitimo. Mas, tanto uma quanto a outra compartilham um conhecimento de outra categoria. Detêm, de certa forma, um conhecimento "oficial", ensinado na universidade, isso quer dizer que visam à universalidade e sustentam as práticas legítimas das instituições médicas ou de pesquisa. No entanto, esse monopólio da "verdade" é disputado pelas medicinas que repousam sobre as tradições populares, variáveis conforme as culturas, ou sobre outras tradições do conhecimento (acupuntura, homeopatia, quiropraxia, medicina ayuvérdica, etc.) que por sua vez se apoiam em outras representações do corpo humano.
O sociólogo não pode então tomar partido nesses conflitos de legitimidade ou nessas coexistências paradoxais que lembram justamente o carácter sempre social e cultural das obras humanas; antes de tudo, tem como tarefa tornar perceptíveis os imaginários do corpo presentes na medicina moderna ou nas outras medicinas; assim como apreender os procedimentos variados usados nas curas e compreender as virtudes apregoadas.
A sociologia aplicada ao corpo distancia-se das asserções médicas que desprezam as dimensões pessoal, social e cultural nas percepções do corpo. Tudo se passa como se a representação anatomofisiológica tivesse que escapar da história para entregar-se ao absoluto.
Uma Sociologia do corpo? (idem:35)
Uma "sociologia do corpo", lúcida em relação às ameaças que pesam sobre ela, mas que ao afastá-las descobre um continente a ser pesquisado, quase inexplorado, onde a inteligência e a imaginação sociológica do pesquisador se podem desenvolver. Essa via central da pesquisa pode, por outro lado, alimentar-se avidamente das análises levadas a cabo em outros lugares e para outras finalidades.
08/11/2012
Representações do Bom Aluno
Até aos 14 anos andei distraído mas tinha desgosto com isso… (02:34) porque não tinha organização, não sabia por onde havia de começar… (02:50). (...) Eu também fui mau aluno. Quando chumbei... o meu pai perguntou-me, e eu comecei a chorar. E ele disse-me: “Olha, tu ao menos tiveste o desgosto!” Quando a pessoa tem o desgosto vai fazer imediatamente que isso não se volte a repetir, porque há muitos que nem desgosto têm (25:30).
No texto abaixo podemos observar outras representações do universo escolar, associadas à sua experiência pessoal. Por exemplo, a indicação do desporto encontra-se associado a um dado biográfico a saber: o autor foi atleta do Benfica!
Fonte: Meia-Hora.
1. "Mas essa parte não era para se dizer" (02:22). Porquê?
2. Identifica no texto outras representações do "bom aluno".
19/09/2012
O abraço de Adriana
A imagem abaixo tornou-se viral após a manifestação de 15 de Setembro de 2012.
1. Quem transformou esta foto em símbolo do 15/SET/12?
2. Expressa por palavras tuas o conceito de representações sociais.
3. Refere algumas representações sociais associadas ao abraço de Adriana.
Recursos
- “Porque é que estão aqui?”
“Estou aqui porque é o meu trabalho.”
“Mas não preferias estar connosco, deste lado?”
www.ionline.pt
1. Quem transformou esta foto em símbolo do 15/SET/12?
2. Expressa por palavras tuas o conceito de representações sociais.
3. Refere algumas representações sociais associadas ao abraço de Adriana.
Recursos
24/05/2012
Inquérito aos alunos da Universidade de Lisboa mostra que a selectividade social no ingresso faz-se sentir mais em certos cursos, como Medicina e Belas-Artes
Apesar da democratização do ensino superior nos últimos anos, o acesso à faculdade continua a estar condicionado por factores extra-escolares, como as habilitações académicas, os rendimentos e a ocupação dos pais. Esta foi uma das conclusões a que chegaram Ana Nunes de Almeida e Maria Manuel Vieira, a partir de um estudo sobre o retrato social dos estudantes inscritos no 1.º ano de cada um dos cursos das sete faculdades da Universidade de Lisboa (UL), em 2003/2004. A tal ponto que é mesmo possível afirmar-se que "os mecanismos de reprodução de posições de privilégio ou desfavor entre gerações funcionam implacavelmente no sistema de ensino português".
O facto de os pais com níveis de escolaridade mais elevados estarem sobre-representados entre os mais de dois mil inquiridos da Universidade de Lisboa é apenas uma das expressões da "desigualdade de oportunidades no acesso dos jovens aos níveis mais elevados do sistema educativo". Por exemplo, se 62,5 por cento de toda a população portuguesa entre os 40 e os 60 anos tinha no ano do estudo a 4.ª classe como habilitação máxima, entre os pais dos alunos da UL essa percentagem fica-se pelos 21 por cento.
No extremo oposto, encontram-se os 33 por cento de progenitores com um curso superior, contra uma média inferior a dez por cento no conjunto do país. Sendo que esta selectividade social se faz sentir de forma mais acentuada em determinados faculdades, como Medicina (quase metade dos pais são licenciados), Medicina Dentária, Farmácia ou Belas-Artes. A estes cursos chegam os alunos com notas mais elevadas. E o estudo mostra novamente haver uma sobre-representação das famílias com rendimentos superiores nos alunos com melhores classificações.
Os dados sugerem um "cenário de cumplicidade entre certas franjas sociais e certas faculdades". Por exemplo, apenas 4,6 por cento dos alunos de Medicina são oriundos de famílias com um rendimento per capita inferior a 250 euros mensais, contra 8,4 por cento na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação.
A ocupação profissional dos progenitores é outra variável determinante. Em 2003/2004, dois terços dos novos alunos eram oriundos de "agregados familiares detentores de elevados recursos técnico-profissionais". Os filhos de "operários e artífices" e de "trabalhadores não qualificados" representavam 17 por cento. Estudos anteriores demonstraram que esta proporção se agrava ao longo da faculdade, com as classes mais elevadas a ganharem peso entre os que concluem o curso e as restantes a diminuírem".
Fonte: PÚBLICO, 15.03.2007
O facto de os pais com níveis de escolaridade mais elevados estarem sobre-representados entre os mais de dois mil inquiridos da Universidade de Lisboa é apenas uma das expressões da "desigualdade de oportunidades no acesso dos jovens aos níveis mais elevados do sistema educativo". Por exemplo, se 62,5 por cento de toda a população portuguesa entre os 40 e os 60 anos tinha no ano do estudo a 4.ª classe como habilitação máxima, entre os pais dos alunos da UL essa percentagem fica-se pelos 21 por cento.
No extremo oposto, encontram-se os 33 por cento de progenitores com um curso superior, contra uma média inferior a dez por cento no conjunto do país. Sendo que esta selectividade social se faz sentir de forma mais acentuada em determinados faculdades, como Medicina (quase metade dos pais são licenciados), Medicina Dentária, Farmácia ou Belas-Artes. A estes cursos chegam os alunos com notas mais elevadas. E o estudo mostra novamente haver uma sobre-representação das famílias com rendimentos superiores nos alunos com melhores classificações.
Os dados sugerem um "cenário de cumplicidade entre certas franjas sociais e certas faculdades". Por exemplo, apenas 4,6 por cento dos alunos de Medicina são oriundos de famílias com um rendimento per capita inferior a 250 euros mensais, contra 8,4 por cento na Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação.
A ocupação profissional dos progenitores é outra variável determinante. Em 2003/2004, dois terços dos novos alunos eram oriundos de "agregados familiares detentores de elevados recursos técnico-profissionais". Os filhos de "operários e artífices" e de "trabalhadores não qualificados" representavam 17 por cento. Estudos anteriores demonstraram que esta proporção se agrava ao longo da faculdade, com as classes mais elevadas a ganharem peso entre os que concluem o curso e as restantes a diminuírem".
Fonte: PÚBLICO, 15.03.2007
11/05/2012
Pobreza e exclusão social
Provavelmente nunca terá optado entre uma lagosta e um hambúrguer, porque quem “gosta” de lagostas não tem ”apetite” para hambúrgueres, e quem come hambúrgueres nem sonha com lagostas. Observamos que uns bens fazem parte dos padrões culturais dos estratos sociais superiores, enquanto outros se encontram associados aos estratos inferiores. Isto significa que a sociedade se encontra organizada de modo a apresentar justificações legítimas para a exclusão social.
Certamente nunca o Mundo foi tão rico quanto hoje. Muitas pessoas estão indignadas pelo modo iníquo como os ganhos da globalização têm sido distribuídos. A percepção de que vivemos na mesma aldeia global permite que todos possam comunicar as suas ideias, e os mais optimistas até podem encarar as crises como oportunidades. Participar neste diálogo é difícil, até porque os novos mecanismos de diálogo e de decisão ainda não estão criados, abrindo espaço para a criatividade.
Clique na imagem para ver o vídeo
Podemos definir exclusão, como as estratégias que os grupos adoptam para se separarem dos estranhos, impedindo-os do acesso a recursos de valor (Giddens,2001, p. 306).
Outra abordagem da exclusão social consiste em recordar os direitos e deveres de cidadania. Se ler a Constituição ficará cansado só de conhecer a sua lista de direitos. Certamente lhe reconhecerão o direito a ser eleito, à saúde, à educação, ao trabalho, etc. Como sabe, os indivíduos de estratos sociais mais desfavorecidos não têm efectivamente o estatuto de cidadania plena, quer dizer, vivem impedidos de participar segundo os padrões de vida tidos por aceitáveis na sociedade em que vivem. Nesta definição está implícito o seu oposto: alguns grupos da população, com pedigree (*), encontram lugares facilmente elegíveis nas listas dos partidos, podem escolher os melhores médicos, as escolas mais caras, viver em condomínios fechados, nunca ficam desempregados, etc.
O conceito de pobreza absoluta é difícil de operacionalizar, porque nunca saberemos abaixo de quantos euros/mês é que um indivíduo não tem capacidade para satisfazer as suas necessidades.
- Nos primeiros tempos da ONU, a pobreza era medida em termos
da capacidade de obter um número mínimo de calorias ou de ter um nível mínimo
de rendimentos para satisfazer as necessidades (pobreza em termos de
rendimentos). O “limiar de pobreza” definia esse nível mínimo e os pobres eram
aqueles cujos rendimentos ou ração calórica eram inferiores a esse mínimo. Um
indicador utilizado habitualmente para efeitos das comparações internacionais de
pobreza de rendimentos é o de 1 ou 2
dólares por dia (poder de compra equivalente a 1 ou 2 dólares nos Estados
Unidos em 1993). Houve mudanças ao nível das ideias sobre a forma de medir a
pobreza, tendo havido tentativas de integrar no indicador algumas das suas diferentes
dimensões.
http://www.unric.org/html/portuguese/uninfo/material_pedagogico/Pobreza.pdf
Nos países mais pobres a escolaridade é mais reduzida, contribuindo para perpetuar a situação.
Interessa pensar na pobreza em relação aos padrões médios de consumo nas sociedades:
- «Pobreza relativa» define como pobres aqueles que «não têm possibilidade de participar das actividades, condições de vida e conforto consideradas habituais na sua sociedade». Portanto um pobre no Luxemburgo ou na Noruega, em função dos padrões locais habituais de alimentação, vestuário, etc., terá provavelmente padrões de vida superiores à classe média em Portugal. Este conceito de pobreza como carência ou privação social implica que o critério-padrão de pobreza se torna mais exigente quando as condições de vida melhoram, o que na verdade implica que a pobreza nunca poderá ser totalmente eliminada, excepto talvez se a distribuição do rendimento se tornar igual entre todos os indivíduos da sociedade.
http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223990554E7tDF6uf1Tb56WD7.pdf
O Coeficiente de Gini indica que os países da OCDE onde o rendimento se encontra pior distribuído são: Chile, México,... Turquia,... Estados Unidos da América, Israel,... Portugal, Reino Unido...
O antropólogo Oscar Lewis, definiu “cultura de pobreza”, que é referenciado num programa que visa a contextualização das políticas públicas de cunho social:
- A cultura da pobreza é ao mesmo tempo, uma adaptação e uma reacção dos pobres à sua posição marginal na sociedade capitalista, extremamente individualista. Representa um esforço para combater os sentimentos de desespero que surgem quando os pobres compreendem o quanto é improvável que tenham êxito concebido segundo valores e objectivos da sociedade em que vivem. (...) A cultura da pobreza não é somente uma adaptação a uma série de condições objectivas do conjunto da sociedade. Uma vez que se manifeste, tende a perpetuar-se de geração em geração, em razão do efeito que produz nas crianças. Quando as crianças dos cortiços atingem seis ou sete anos, em geral já assimilaram os valores básicos e os hábitos da sua sub-cultura, e não se encontram em condições psicológicas para aproveitar plenamente a evolução ou os progressos possíveis de acontecer durante sua vida.
http://joinpp.ufma.br/jornadas/joinppIII/html/Trabalhos/EixoTematicoC/2031ac9f3d7c649ef65fAndrea%20Santos%20de%20Jesus_João%20Bosco%20Costa.pdf
O conceito de Lewis foi criticado por sugerir o carácter fatalista ou auto-sustentado da pobreza, fornecendo argumentos preciosos aos políticos que desejavam cortar recursos financeiros atribuídos às políticas sociais.
- Tentou-se calcular o «limiar de pobreza» na África-do-Sul: esse limiar foi definido como «uma estimativa do rendimento necessário a uma família para atingir um nível mínimo determinado de saúde e de dignidade»; foi calculado em função do custo (aos mais baixos preços de retalho) dum orçamento correspondente ao estritamente necessário, ou seja:
a) uma quantidade e uma variedade de produtos alimentares que, tendo em conta a idade e o sexo, possam assegurar a cada membro da família a qualidade e o valor em calorias, proteínas, gorduras e vitaminas necessárias à manutenção da saúde, segundo os cálculos dos peritos em dietética, atendendo aos hábitos alimentares da colectividade;
b) o mínimo de vestuário indispensável â protecção da saúde e compatível com as normas sociais da decência;
c) o mínimo de combustível e de iluminação compatível com a manutenção da saúde, tendo em conta os costumes adoptados pela colectividade;
d) o mínimo de artigos de higiene e manutenção para uso pessoal e doméstico, compatível com as necessidades e os costumes;
e) as despesas de transporte entre o domicílio e o local de trabalho dos membros da família com trabalho remunerado;
f) o custo do alojamento.
Este nível é talvez mais interessante pelo que omite do que pelo seu conteúdo. Nada se prevê nele em matéria de despesas quanto a distracções, desportos, medicamentos, educação, economias, compras ocasionais, férias, utilização dos transportes em comum, compra de jornais, artigos de papelaria, tabaco e doces, passatempos, ofertas, «dinheiro de bolso» ou quaisquer outras pequenas despesas «supérfluas». Nada nele se prevê para a substituição de colchoaria, mobiliário ou loiça. Não é um nível de vida «humano». http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1224251406G7xNH9uk3Yy15TR7.pdf
Evidentemente que a escassez de rendimento, poderá estar na origem da exclusão social, embora esta possa ser atribuída a outros motivos. Assim:
- (...) «não faz qualquer sentido tentar apreender os excluídos como uma categoria. São os processos de exclusão que importa ter em conta. (...) O importante é, em primeiro lugar, analisar bem a natureza das trajectórias que
conduzem às situações de exclusão...» (Rosanvallon, 1995: 202).
http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/DPR4628c4a5f1b41_1.pdf
A doença e a dependência para realizarem a sua própria higiene estão na origem de trajectórias de exclusão social entre os idosos. Entre os jovens, o consumo de drogas é referido frequentemente como factor de exclusão:
- Estes jovens parecem sentir-se “abandonados” (pela família,
pelos outros jovens, pelas instituições concelhias e pela sociedade em geral)
ao seu destino, marcado por um “presente incerto” e por uma nítida
“desvalorização do futuro”. Vivendo tempos incertos, que transportam consigo o
“abandono”, a indiferença e a selectividade, valores tornados substitutos da
“esperança”, onde o acesso ao emprego se afigura improvável, cedendo lugar ao
desemprego (pelas baixas qualificações, pelos baixos níveis de escolaridade de
que são portadores e ainda pela condição de dependência face à droga), “em
busca de alternativas, são remetidos para a marginalidade”, optando por um modo
de vida que se designou como “delinquência de precariedade”, claramente
inscrito numa dimensão de sobrevivência quotidiana. Vêm assim reforçadas,
reconhecem e assumem todas as condições de vulnerabilidade e de exclusão social
no mais amplo sentido do termo.
http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/DPR492598b8e57f0_1.pdf
Destacam-se dois factores genéricos referidos no texto, como motivo de exclusão social juvenil. O desemprego que tem crescido exponencialmente graças ao desenvolvimento tecnológico sem precedentes, à transferência maciça de trabalho para o self-service e à deslocalização para a Ásia. Também se invoca o baixo nível de escolaridade, apesar desta geração de jovens ser a mais escolarizada.
1. Distingue dois conceitos de pobreza.
2. Distingue pobreza de exclusão social.
3. Identifica as categorias sociais mais vulneráveis à pobreza.
4. Refere os factores que influenciam a produção e reprodução da pobreza.
Recursos
- SOS na zona pobre
- Isabel Guerra (Dinâmia-CET, ISCTE), Contribuições para uma agenda de reforço da coesão social na sociedade portuguesa
- David Justino (U. N. de Lisboa), Pobreza e responsabilidade social na era da globalização
- Pedro Perista e Isabel Baptista (CESIS), Estruturalidade da pobreza em Portugal
- Fernando Diogo (U. dos Açores), Trabalhadores pobres ou pobres trabalhadores, o caso dos beneficiários do RSI
- Manuel Sarmento (U. do Minho), Pobreza, Exclusão e políticas públicas inclusivas para a Infância
- Alexandra Castro (Dinâmia-CET, ISCTE), Ciganos e a orientação explícita, mas não exclusiva das políticas sociais: a construção de um caminho em Portugal?
- Alexandra Lopes (U. do Porto), Idosos e riscos de exclusão social, as dimensões monetária e não monetária
- O recurso escasso do futuro: a água
- Austeridade: Portugal é o único país com uma distribuição claramente regressiva
- Há dois milhões de pobres em Portugal
- Se o Mundo fosse uma aldeia com 100 pessoas PPS recebido por mail, para demonstrar que somos mal agradecidos pela nossa "sorte"
- THE TRUE COST OF AUSTERITY AND INEQUALITY, Setembro de 2013, OXFAM.
Vitor Gaspar, advertiu que "a disciplina orçamental" não vai acabar, mesmo que as medidas de austeridade acordadas entre a Troika e o Governo Português sejam respeitadas e concluídas em 2014. Gaspar afirmou ainda que o trabalho para reduzir os níveis de dívida não será concluída em 2014 ou no ano seguinte: "Vai levar os esforços de uma geração".
NOTA
(*) O termo pedigree foi utilizado para simplificar a escrita. Pretende enfatizar a ideia que muitas famílias são cultas e ricas, porque já está na linha do seu sangue um passado recheado com ascendentes "nobres".
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