04/04/2012

Consumo e estilos de vida

Na sociedade de consumo as opções de aquisição dos bens já não determinadas pela satisfação de necessidades básicas, mas principalmente pelo seu significado simbólico.

Bourdieu, perspectiva a noção de “capital” “sob a forma de um recurso que representa riqueza, uma “energia social”, e um poder”. Dentro destes capitais, existe o capital simbólico que é a associação última, por exemplo, de outros capitais: o económico, o cultural, o social. O simbolismo é tudo o que sacraliza, são as aparências tornadas legítimas aos olhos dos outros. O simbolismo tem o dom de marcar a diferença; é o reconhecimento de uns em relação aos outros.

“A actividade simbolizante e semântica do homem não se exprime, de facto, somente, com a língua e a palavra,
mas igualmente, com todo o conjunto de padrões de comportamento e das instituições sociais. Qualquer acção do homem pode assumir o valor dum símbolo, isto é, pode ser inserida num sistema de interpretações e de expressões com as quais o próprio homem procura precisar a sua própria relação com a realidade cósmica, quer como indivíduos, quer como associações”.

Por outro lado, associado a esta carga simbólica, estão, inevitavelmente, presentes, os estilos de vida. Por sua vez, estes não podem ser entendidos sem serem
inseridos num compromisso entre as aspirações dos indivíduos e dos constrangimentos da sociedade e do meio envolvente. Os estilos de vida dependem dos valores, que nada mais são, em termos sucintos, que o “mapa” mais abrangente de uma sociedade ou de uma cultura. Os valores modificam-se de acordo com os fluxos culturais (são as tendências dinâmicas que modificam sobre um longo período da hierarquia dos valores, os modos de pensamento e de expressão, os hábitos de comportamentos numa cultura, de forma diferenciada segundo os tipos de pessoas).
http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/DPR462df6d1ecd2b_1.PDF

Os novos estilos de vida reflectiram-se no campo alimentar pela importância crescente do fast-food, que introduziu certamente novos hábitos de consumo e de lazer na sociedade portuguesa.

    TEXTO: McDonald’s, fenómeno global no espaço local

    A McDonald’s, com os seus famosos “Arcos Dourados”, é mais que uma cadeia de restaurantes e que uma experiência gastronómica. Estando associada a uma série de significados e práticas sociais, conduz-nos, a um mundo de fantasia e divertimento, expresso nos sorrisos dos funcionários, na figura de Ronald McDonald, nas próprias cores típicas da companhia (vermelho e amarelo), no ambiente que encontramos nos restaurantes e em diversas actividades destinadas ao seu público-alvo, as crianças e as famílias, tais como as festas de anos e as próprias promoções relacionadas com o Happy Meal.
    Devemos, no entanto, questionar quer o modo como estes símbolos mundialmente reconhecidos se tornaram parte integrante da cadeia quer os próprios símbolos. Todos aqueles critérios, a partir dos quais nos habituámos a pensar na McDonald´s, são construções culturais, como nos lembra John Law (apud Star: 1996), devendo ser analisados sob este ponto de vista.
    Sendo a McDonald’s um símbolo da globalização, da “americanização” e da “McDonaldização”, suscita o debate que opõe os que defendem que a globalização e os objectos culturais globais destroem o particular e único, contribuindo para o seu desaparecimento, aos que, por outro lado, acreditam no carácter mutuamente constitutivo do local e do global. Entendendo-se a globalização como a intensificação de trocas sociais, políticas, económicas e culturais a nível mundial, devemos, a nosso ver, compreender este conceito e os fenómenos a ele associados, particularmente no campo da alimentação, como estando numa tensão entre a tendência para a homogeneização e a impulsão do aumento da diversidade e heterogeneidade, permitindo o acréscimo do poder de escolha e o contacto com outras realidades.
    É verdade que a McDonald’s está espalhada um pouco por todo o mundo, sendo responsável pela introdução de um tipo de alimentação homogénea e padronizada em
    várias partes do planeta. No entanto, o impacto da sua implantação depende do país em causa. Não podemos generalizar as consequências da introdução da McDonald’s, pois estaríamos a correr o risco de considerar o próprio mundo e os consumidores como estandardizados.
    O facto de pertencermos a uma dada cultura dá-nos acesso a determinados significados que utilizamos quotidianamente para atribuir sentido ao mundo em que vivemos. Assim, o contexto cultural tem consequências no modo como o local absorve as formas culturais globais, as transforma e adapta à sua realidade, originando fenómenos globais híbridos recontextualizados.
    No campo alimentar, devemos ter em conta que aquilo que comemos depende da sociedade em que vivemos e está sujeito a alterações ao longo do tempo, que estão associadas à criação de novas necessidades. Como nos lembra Margaret Visser (1998:117-130), quando uma sociedade aceita um novo alimento, fá-lo porque este pode preencher um determinado papel, mesmo que este esteja relacionado com fenómenos de moda. A McDonald’s deve ser compreendida como uma cadeia que produz um tipo de alimentação estandardizada que é introduzida nas diversas sociedades locais que, por sua vez, e até certo ponto, a transformam, combinando-a com as suas práticas alimentares locais, em associações únicas que contribuem para a diversificação alimentar.
    A Cadeia, enquanto fenómeno cultural, deve ser apreendida do ponto de vista da produção, do marketing, do consumo e do uso, uma vez que devemos ter em atenção a criatividade da companhia e dos consumidores, o que nos remete para a noção de consumo de McCracken (1988), o processo pelo qual os bens de consumo e os serviços são criados, comprados e usados.
    Compreender o processo de produção é mais do que tomar conhecimento do modo como são confeccionados os hambúrgueres e as batatas, uma vez que isso, por si só, não nos permite saber como é construído o significado social conotado com a McDonald´s. A apreensão do modo como os significados e práticas que associamos à McDonald’s se tornaram emblemáticos implica a análise dos processos de difusão utilizados pela cadeia para transmitir mundialmente a sua mensagem, da sua história e cultura, o que está directamente associado à identidade da mesma e ao perfil dos funcionários e dos franqueados que encontramos na McDonald´s.
    http://www.aps.pt/cms/docs_prv/docs/DPR4628d6b350935_1.pdf


A McDonaldização dos hábitos alimentares decorre parcialmente de novas exigências produtividade económica, com efeitos não negligenciáveis sobre o aumento da obesidade, que “constitui um importante problema de saúde pública com consequências económicas de grande dimensão. Os obesos têm um risco acrescido de contrair doenças e de sofrer morte prematura devido a problemas como a diabetes, hipertensão arterial, AVC, insuficiência cardíaca e algumas neoplasias malignas”.
http://www.adexo.pt/pdf/JP_CM_obesidade%20RPSP_final.pdf

Os médicos alertam sistematicamente para a necessidade dos indivíduos cuidarem do “corpo”:

    A actividade física pode salvar a vida, literalmente. Os benefícios de exercitar o corpo durante 30 a 60 minutos por dia, vários dias por semana são muitos:
    - reduz o risco de doenças cardiovasculares;
    - ajuda a controlar e a prevenir factores de risco como a pressão arterial alta, o colesterol elevado e a obesidade;
    - ajuda a baixar os níveis de stress;
    - aumenta a energia;
    - melhora o sono e a digestão;
    - melhora o bem-estar geral e estimula a procura de estilos de vida mais saudáveis.
    http://www.fpcardiologia.pt/cuidedesi_1.html

Numa sociedade de consumo, as convicções e convenções são substituídas pela flexibilidade e pela mobilidade, permitindo deste modo, e através do próprio consumo, transformar as representações da ‘boa vida’ em realidade. Por isso, a construção do ‘eu’ traduz-se na posse de bens desejados e na prossecução de estilos de vida que envolvem uma dada construção corporal. Funde-se a preocupação interna com a saúde e a preocupação externa com a aparência, o movimento e o controlo do corpo.

Dois factores são fundamentais na sociedade de consumo: a dieta e o exercício físico.
Estas formas de investimento corporal são usadas para preservar a vida, aumentando os seus prazeres, que passam por consumir, gastar e saciar o desejo: o corpo na cultura de consumo é então um veículo de prazer. (...)

Ao longo dos tempos surge nas sociedades ocidentais uma noção de feminilidade que se entrecruza com a de consumismo e com a imitação de figuras de prestígio. Traçando uma evolução temporal, estas figuras de referência foram, aristocratas, seguidamente herdeiras de grandes fortunas, estrelas de cinema e depois modelos, estrelas pop e de televisão. Estas referências influenciaram pois o denominado ‘look’, ou seja, o conjunto iconográfico feminino. Logo, a identidade da mulher surge associada à exposição dos seus atributos (Craik, 1994). (...)

As adolescentes são das mais permeáveis ao culto dos vários modelos, seja através da tentativa de obtenção dos símbolos adoptados pelos seus ídolos, como as roupas ou os enfeites corporais, seja através da imitação dos seus maneirismos, positivamente valorizados nas sociedades de consumo. (...)

A questão do consumo torna-se pois fundamental para a construção da imagem corporal. Um corpo mal cuidado torna-se uma vergonha da classe – a que se pertence ou a que se aspira – que é concomitantemente projectada sobre esse mesmo corpo. Consequentemente, o corpo torna-se o signo de status mais estreitamente associado à pessoa, tornando-se a ocasião e o pretexto de um número sempre crescente de consumos (Maisonneuve e Bruchon-Schweiter, 1981). Simultaneamente, a aparência e a apresentação do corpo tornam-se centrais na construção da auto-identidade, através do desenvolvimento da consciência do corpo, que se deve aproximar o mais possível das imagens ideais para aumentar o seu valor, em termos de bem negociável e ‘vendável’ (Fox, 1997). Os corpos passam assim de produtores a produtos de consumo, apesar de não serem objectos passivos, na medida em que eles próprios consomem.

Na esteira de Giddens (1997), pode-se afirmar que a relação entre o corpo e a auto-identidade é cada vez mais dinâmica. O culto do corpo e da aparência encobrem assim a preocupação com o controlo activo e com a construção do corpo através das várias opções de estilos de vida que a modernidade reflexiva possibilita (Giddens, 1997).

Dá-se então uma espécie de fusão entre a preocupação interna com a saúde e a preocupação externa com a aparência, o movimento e o controlo do corpo. Por isso, hoje ter-se um corpo musculado, tonificado, firme, simboliza uma atitude social correcta, uma vez que corresponde a uma preocupação com a maneira como se ‘parece’ aos outros. Para mais, esta pertença envolve controlo, força de vontade e energia, a tradução de uma imagem de auto-suficiência e sucesso que é o ideal das sociedades (pós-) modernas – e que resulta da influência das várias figuras de referência. O recurso crescente à cirurgia estética para reconstruir os corpos acentua esta tendência.
Aliás, a cirurgia estética pode ser vista como algo que, paradoxalmente, permite às mulheres sentirem-se sujeitos corporalizados e não ‘corpos objectivados’, vivenciando o corpo de uma forma plena, na medida em que agem sobre eles e os transformam, transformando-se também a elas próprias (Williams e Bendelow, 1998).

A saúde está deste modo envolvida na sociedade de consumo, através, por exemplo, da indústria da boa forma, como os aparelhos de ginástica que substituem a corrida, o andar de bicicleta, o remar, etc.. Sobressaem pois duas visões antagónicas: a) a noção de saúde como controlo, que reflecte e reforça os imperativos do capitalismo tardio em relação a uma força de trabalho disciplinada e produtiva; e b) a saúde vista como libertação – tornando-se uma metáfora para o imperativo em relação ao consumo. Chocam assim as necessidades de disciplina com as necessidades de prazer; o corpo é o reflexo da disposição e das contradições culturais da sociedade capitalista tardia (Williams e Bendelow, 1998).
http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/204.pdf

1. Define estilos de vida.

2. Identifica novos estilos de vida, referindo as preocupações com o “corpo” para os objectivar.

3. Partindo do exemplo do fast-food, discute a tendência para a uniformização dos padrões de consumo a nível mundial versus adaptação dos produtos aos contextos locais.

4. Relaciona a globalização com os novos estilos de vida (consumos lights, desportos radicais, consumos com consciência ambiental, etc.).

Outros recursos

02/04/2012

Sexting

Quando as nossas imagens íntimas vão parar à Internet

Artigo de Bárbara Wong, no PÚBLICO.

Arquivado por Aventura Social Mais Recursos sobre Sexting em...

Globalização

A economia informacional é global. Uma economia global é uma nova realidade histórica diferente de uma economia mundial. Segundo Fernand Braudel e Immanuel Wallerstein, economia mundial, ou seja, uma economia em que a acumulação de capital avança por todo o Mundo, existe no Ocidente, no mínimo desde o século XVI. Uma economia global é algo diferente: é uma economia com capacidade para funcionar como uma unidade em tempo real, à escala planetária. (...) Economia global é uma economia cujas componentes nucleares, têm a capacidade institucional, organizacional e tecnológica para trabalharem como uma unidade em tempo real ou num tempo convencionado, a uma escala planetária (Castells, 2007a, p. 124).

A economia portuguesa encontra-se aberta ao exterior num grau análogo ao de numerosos outros países.


http://dx.doi.org/10.1787/888932503797

Mas a inexistência de um sector industrial será uma das razões que justifica o défice estrutural da balança corrente, abaixo indicado em percentagem do PIB.


http://dx.doi.org/10.1787/888932504272

O desenvolvimento das TIC nunca foi um ponto forte da sociedade portuguesa, mas desde que a Internet passou a ser comercializada - desde 1990(*) - mudou as rotinas diárias das famílias.

Os meios de comunicação também têm sentido necessidade de se adaptar ao meio electrónico. Vivemos num paradigma em que o jornalista escrevia notícias padronizadas para uma massa de leitores, emergindo agora a sua integração em redes sociais onde estes ainda não descobriram um modelo de negócio.

O teórico mais respeitado dos meios de comunicação é Marshall McLuan. Para ele “As sociedades têm sempre sido redesenhadas mais pelas características dos meios de comunicação utilizados pelos homens que pelo conteúdo da comunicação”.

Todos os media são extensões de algumas faculdades humanas, mentais ou físicas. A roda é uma extensão dos pés. O livro é uma extensão dos olhos. A roupa é uma extensão da pele. Os sinais eléctricos são uma extensão do sistema neuronal-central. A forma como são transmitidos estes sinais afecta a forma como nós pensamos, e quando muda o modo de transmissão a sociedade também muda.

Estamos habituados a pensar excessivamente no conteúdo das mensagens, mas como nos recorda Marshall McLuan, “o meio é a mensagem”, o meio é uma provocação, uma forma de pedir atenção, não é qualquer coisa neutral, desenha o mapa, sobretudo quando o meio é novidade. Eis alguns dos seus tweets:

Não interessa o que você diz ao telefone; o facto é que você está lá.

À velocidade da luz não existe uma sequência; tudo acontece de uma só vez.

Nosso novo ambiente eléctrico obriga ao empenho e participação e preenche as necessidades psíquicas e sociais do homem em níveis profundos.

A extensão de nosso sistema nervoso como um ambiente de total de informação é uma extensão do processo evolutivo.

A aldeia global é um lugar de interfaces muito difíceis e situações muito abrasivas.

Os novas mídias procuram que você se envolva e tome parte da acção.

Quando a informação se torna totalmente ambiental e instantânea, é impossível ter monopólio do conhecimento.



Como é possível que o hardware do teu computador seja mais barato que a licença do Windows?
Uma pista interessante para responder a esta pergunta encontra-se no vídeo The Story of Stuff, a história das coisas, que apresenta a sociedade de consumo como motor do sistema capitalista.


Num post com 1000 palavras, pretende-se que tenha em consideração os seguintes objectivos:

- Constatar a aceleração das trocas e dos movimentos da população a nível mundial

- Referir as várias dimensões do fenómeno da globalização (económica, financeira e cultural)

- Explicitar a importância da globalização da economia referindo o papel das empresas transnacionais (ETN), frequentemente designadas multinacionais

- Explicitar o papel dos meios de comunicação (audiovisuais, agências de informação, imprensa, livros, publicidade, bases de dados, TIC, internet, etc.) na difusão cultural

- Explicar o papel dos meios de comunicação social na sociedade actual

- Relacionar a globalização com as novas representações sociais

- Aculturação. A língua inglesa como factor homogeneizador das culturas nacionais / As TIC como novas possibilidades de expressão de culturas minoritárias (o exemplo do Mirandês, Site para aprender Mirandês * Vídeo sobre o Mirandês )

NOTA

(*) A Internet começou a ser comercializada em 1990 pelo PUUG. O ISP de maior dimensão viria a ser a Telepac que começou a fornecer o serviço Internet entre 1992 e 1995, mas só partir de 1999/2000 se popularizará.

Recursos

Reprodução e mudança social


Fonte: Mobilidade social e atitudes de classe em Portugal, Análise Social, vol. xxxiii (146-147), 1998 (2.o -3.°), 381-414

Reprodução social consiste no facto de qualquer sociedade, sentir a necessidade imperiosa de regenerar os indivíduos constantemente. Por extensão, sociologicamente, a reprodução social refere-se ao fenómeno sociológico de imobilidade social intergeracional. Isto é, as famílias tendencialmente mantém o seu status social de uma geração para outra através da transmissão de um património, tangível ou intangível. Isso reflete-se estatisticamente pelo facto de que o filho de um trabalhador indiferenciado hoje, muito mais provavelmente se tornar trabalhador indiferenciado amanhã que deixar a sua classe. Até mesmo um filho de quadro tenderá a tornar-se outro quadro, sendo particularmente difícil descer ou subir de estrato social (mobilidade social descendente ou ascendente).

Num estudo sobre mobilidade ocupacional em 11 países, o Observatório da Situação Social, concluiu que o efeito ocupação dos pais sobre uma ocupação de direcção ou profissional é mais acentuado em Portugal e na Hungria. Em Portugal, alguém cujo pai desempenhe uma ocupação de direcção ou profissional tem 15 vezes maior probabilidade de atingir esses empregos que outro colega cujo pai seja um operário qualificado ou não qualificado.

Na Hungria, Chipre e Bulgária este ratio também se encontra acima de 10. Em contraste, na Finlândia e Letónia, o ratio é apenas de 4.

Giddens (2000) define reprodução social como os processos que sustentam e perpetuam as características da estrutura social ao longo do tempo.

Este imobilismo na estrutura social das sociedades capitalistas, mostra que o resultado da actividade da Escola pública não produz os efeitos para que foi criada desde os ideais iluministas no séc. XVIII. A denúncia desta situação pela Sociologia atribui-se à obra de Pierre BORDIEU e Jean-Claude PASSERON, em A Reprodução: Elementos para uma Teoria do Sistema de Ensino (1970).

Apresentamos brevemente a obra tomando como base a entrevista de Boudieu abaixo:

O pai rico pode dar dinheiro ao seu filho para ele criar uma nova empresa. Se ele cursar uma escola medíocre, se fracassar tudo, até a escola comercial, como os filhinhos do papai fazem hoje, o pai pode dar-lhe dinheiro e ele recomeça... tem de se reproduzir, não se tornará operário! (04:10)

Hoje há outra forma de capital, o capital cultural. É difícil de definir, mas em primeiro lugar temos o domínio da língua. Todos falam francês, até os imigrantes que chegaram há um ano falam francês, mas esse francês não tem mérito escolar, aí você vai tirar zero. Tudo o que vem com isso, tudo o que adquire ouvindo o pai contar estórias, lendo livros, mesmo os de criança, tudo isso é capital cultural, que está desigualmente repartido. Se todos falassem francês sem sotaque ninguém teria mérito. (04:50)

As crianças da classe média sabem direitinho dar à professora o que ela quer. Sabem porque são oriundos do mesmo meio, a mãe faz o mesmo. Então eles ficam bem vistos, têm boas notas, ficam contentes, etc. (06:02)

Há pré-saberes escolares importantes: como se comportar, como chegar, como agir, cuidar do caderno, etc. (06:37)

Docilis” significa que se deixa instruir. Por exemplo a diferença de êxito entre rapazes e raparigas acontece porque elas têm mais docilidade. Não é que seja da natureza das raparigas, é porque são criadas assim e estão prontas para dar à escola o que esta lhe pede. (07:00)



TEXTO

Embora se fale da democratização do acesso e se diga que as portas da universidade estão abertas a todos, um inquérito revela que continuam a ser os filhos das classes "melhor providas de recursos" os que têm mais facilidade em entrar e escolher as licenciaturas com melhores saídas profissionais, como Ciências Médicas. (...) De uma maneira geral, o recrutamento dos alunos concentra-se nas classes com maiores recursos e mais influência. Paralelamente, verifica-se um menor acesso dos filhos de famílias com menos recursos. Os investigadores construíram um "índice de recrutamento escolar" onde jogam com dois factores: a família de origem e a população nacional. Concluíram que os indivíduos oriundos das famílias que não ultrapassam o 1º ciclo do básico "têm nove a 20 vezes menos probabilidades de aceder à universidade do que os que são provenientes de grupos domésticos que atingiram o mais alto nível de escolaridade". No cenário do ensino superior português, os filhos de pais com o secundário ou um curso superior estão portanto sobrerepresentados, porque têm mais hipóteses de aceder à universidade.
Fonte: PÚBLICO, Filhos das "Elites" Têm Maiores Probabilidades de Entrar para Cursos com Boas Saídas, por BÁRBARA WONG, Sexta-feira, 29 de Março de 2002

Guy Rocher define a mudança social como toda a transformação observável no tempo, que afecta, de maneira que não seja provisória ou efémera a estrutura ou o funcionamento da organização social de uma colectividade e modifica o curso de sua história. É a mudança de estrutura resultante da acção histórica de certos factores ou de certos grupos no seio de dada colectividade (in Lakatos, 1995, p. 283).

Quanto às características essenciais da mudança aponta os seguintes aspectos:

a) Fenómeno colectivo. Abrange um sector significativo de uma colectividade, afectando as condições ou as formas de vida dos seus elementos.

b) Mudança de estrutura. É necessário identificar elementos estruturais ou culturais da organização social que sofreram alterações.

c) Identificação no tempo. É preciso identificar um ponto de referência a partir do qual o conjunto de transformações possa ser localizado no tempo.

d) Permanência. As transformações observadas e analisadas, devem ter um certo carácter de durabilidade, não devem ser passageiras nem superficiais.

e) Interferência no curso da história de uma sociedade. Decorrente das características anteriores.

f) Acção histórica. Tanto a organização social como a mudança são produtos das actividades dos componentes de uma sociedade, que operam no sentido de originar, acentuar, diminuir ou impedir as modificações de partes ou da totalidade da organização social.





1. Com base no texto apresentado, refere a importância do capital cultural e da riqueza na reprodução social.

2. Tendo presentes as características da mudança social, analisa a possibilidade de a banalização das TIC estar a provocar uma mudança social na sociedade portuguesa.

3. Do teu ponto te vista, como estudante, a mudança que referiste em 2. abre-te mais possibilidades mobilidade ascendente ou cristaliza ainda mais o processo de reprodução social. Justifica.

4.
Indica cinco aspectos que consideres importantes na mudança que se registou em Portugal nas últimas décadas.

Recursos

31/03/2012

Instituições sociais

“Denominar-se-á instituição (Anstalt) uma associação cujos ordenamentos estatuídos, dentro de um domínio especificável, são impostos de modo (relativamente) eficaz a toda a acção segundo determinadas características dadas” (Weber, 2000:80).

Lakatos cita Joseph Fichter (1995:166) apresentando o conceito de instituição social: “uma estrutura relativamente permanente de padrões, papéis e relações que os indivíduos realizam segundo determinadas formas sancionadas e unificadas com o objectivo de satisfazer necessidades sociais básicas”.

As características das instituições são:
- Finalidade ou Função. Satisfação das necessidades sociais.
- Conteúdo relativamente permanente. Padrões, papéis e relações entre indivíduos da mesma cultura.
- Serem estruturadas. Há coesão entre os componentes, em virtude de combinações estruturais de padrões de comportamento.
- Estrutura unificada. Cada instituição, apesar de não ser completamente separada das demais, funciona como uma unidade.
- Possuem valores. Código de conduta.

Todas as instituições devem ter função e estrutura. Função é a meta ou propósito do grupo, cujo objectivo seria regular as necessidades. A Estrutura é composta de pessoal (elementos humanos); equipamentos (aparelhagem material ou imaterial); organização (disposição do pessoal e do equipamento, observando-se uma hierarquia-autoridade e subordinação); comportamento (normas que regulam a conduta dos indivíduos).

Veja-se como exemplo a empresa industrial. Possui função, produz bens e serviços para gerar lucros; e estrutura, que se subdivide em pessoal (direcção, funcionários administrativos e operários), equipamento ((1) imóveis, máquinas e equipamentos materiais, e (2) marca e reputação (imateriais)), organização (democrática ou autocrática, centralizada ou descentralizada) e comportamentos, normas para a constituição e funcionamento, direitos e deveres regulados pelas leis vigentes e pelos estatutos.

As principais instituições sociais são a Família, a Igreja, o Estado, a Empresa e a Escola.

A Família, em geral, é considerada o fundamento básico e universal das sociedades, por se encontrar presente em todos os agrupamentos humanos. Igreja. Durkheim definiu a religião como “um sistema unificado de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, isto é, a coisas colocadas à parte e proibidas – crenças e práticas que unem numa comunidade única todos os que as adoptam” (Lakatos, 1995, 179).

Por Estado “entender-se-á uma função institucional política, quando e na medida em que o seu quadro administrativo reclama com êxito o monopólio legítimo da coacção física para a manutenção das ordenações” (Weber, 2000:83).

Após a Revolução Industrial, a Família perde grande parte das suas funções económicas, que se transferem para uma variedade de outras organizações, como as Empresas e Estado. Só a partir de então este adquire capacidade para intervir na actividade económica.

É inútil julgarmos que educamos os nossos filhos como pretendemos. É que somos obrigados a seguir as regras que imperam no meio social em que vivemos. É a opinião quem nos impõe essas regras, e a opinião é uma força moral cujo poder constrangedor não é inferior ao das coisas físicas. (...) A Escola é o sistema educativo de um país numa época. Cada povo tem o seu, como tem o seu sistema moral, religioso, económico, etc. (Durkheim, 2001: 32).

1. Justifique a perda de importância da Igreja enquanto instituição, na actualidade, referindo:
a) A globalização;
b) A escolarização; e
c) A urbanização.

2. Verifique se o namoro é uma instituição:
a) Na perspectiva Weber;
b) Na perspectiva de Fichter.

Sugestão de Leitura sobre o namoro
Qual é a função do namoro? A resposta parece variar em função das gerações inquiridas. Para as avós qualquer contacto era interdito até à noite do casamento. Hoje os parceiros conhecem-se antes. Não será esta a finalidade/função do namoro?

Nas gerações mais velhas, sobretudo para as avós (...) os namoros são descritos como amizades onde a aproximação entre os protagonistas repousa sobre um compromisso pouco rígido, e onde não parece haver lugar para grandes experimentações ou contactos físicos; (...) enquanto nas gerações mais velhas prevalece uma moral sexual mais conservadora, institucionalizadora e defensora do puritanismo sexual, os jovens transportam uma nova ética, mais experimentalista e fragmentada, “onde há lugar para ligações fugazes e românticas; experiências pré-matrimoniais e coabitacionais; iniciações sexuais precoces e relações heterogâmicas; sendo, finalmente, observável uma relativa tolerância a diversas formas de sexualidade socialmente ou ideologicamente consideradas mais ‘periféricas’”.
Fonte: http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/438.pdf

20/03/2012

Estudos e Representações

Quem utiliza linguagem vulgar nunca refere esse aspecto. Só o método científico sente necessidade de precisar exactamente o  seu objecto de estudo: as representações. Assim, o título da imagem B pode parecer uma armadilha ;)  [Clique nas imagens para verificar a sua origem]







Realmente não foi armadilha... foi quase igual à questão 6 deste post, respondida aqui.

06/03/2012

Ordem social e controlo social

  • "Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem."
    Bertolt Brecht, escritor/ poeta/dramaturgo alemão (1898-1956)
Toda a gente sabe, ou pensa que sabe, quem são os indivíduos desviantes - pessoas que se recusam a viver de acordo, com as regras pelas quais se rege maioria da população. São criminosos violentos, drogados ou marginais, gente que não se encaixa no que a maior parte das pessoas define como padrões normais de comportamento aceitável. Contudo, as coisas não são exactamente o que parecem – uma lição que se aprende com frequência em Sociologia, porque esta nos incentiva a olhar para além do óbvio.

As nossas actividades desmoronar-se-iam se não cumpríssemos as regras que definem certos tipos de comportamento como correctos em determinados contextos e outros como inapropriados. Um comportamento civilizado na estrada, por exemplo, seria impossível se os condutores não respeitassem a regra de conduzir à direita. Poderá pensar-se que aqui não há desviantes, a não ser em caso de condução negligente ou sob influência do álcool. Contudo, se pensa desta forma está enganado. A maioria dos condutores é constituída não apenas por indivíduos desviantes mas por criminosos também, na medida em que a maioria das pessoas, sempre que a polícia de trânsito não está à vista, conduz bem acima dos limites de velocidade.

Todos nós tanto desrespeitamos regras como as seguimos; todos somos também criadores de regras. Os condutores podem não circular a 120 km/h nas autoestradas nem a 100 km/h nas vias rápidas, mas a maioria dos condutores não ultrapassa os 140 km/h nas primeiras, nem os 120 km/h nas segundas, e tem tendência a reduzir a velocidade sempre que atravessam áreas urbanas.

Ninguém quebra todas as regras, assim como ninguém as respeita todas. Mesmo indivíduos que estão totalmente à margem da sociedade respeitável, como os assaltantes de bancos, seguirão as regras dos grupos a que pertencem.

O estudo do comportamento desviante é das áreas mais intrigantes e complexas da Sociologia, ensinando-nos que ninguém é tão normal quanto gosta de pensar. Ajuda-nos igualmente a perceber que aquelas pessoas cujo comportamento pode parecer estranho ou incompreensível, são seres racionais quando compreendemos a razão dos seus actos.

O desvio, tal como a conformidade às normas e regras sociais dependem do poder social para definir e impor os padrões de conduta, pelo que o desvio nunca poderá ser definido sem nos questionarmos: “as regras de quem?”.

Uma acção que nos parece criminosa num dado contexto, poderá noutra situação parecer heróica [ver Jodie Foster, em A Estranha em Mim].

O desvio pode ser definido como uma inconformidade em relação a determinado conjunto de normas aceite por um número significativo de pessoas. As normas são acompanhadas por sanções que promovem a conformidade (sanções positivas) e castigam a não conformidade (sanções negativas).

O desvio é o conjunto de comportamentos e de situações que os membros de um grupo consideram não conformes às suas expectativas, normas ou valores e que, por isso, correm o risco de suscitar condenação e sanções da sua parte. (Boudon, 1995:380) A definição de comportamento desviante pressupõe a existência de um universo normativo, estabelecendo os comportamentos padrão no mesmo grupo.

É habitual distinguir entre sanções físicas, sanções económicas, sanções religiosas e sanções especificamente sociais, que são mais diversas e numerosas. O grupo de amigos, a família e a pequena comunidade empregam fundamentalmente sanções sociais, que variam com a gravidade da falta.

O falatório, o diz-que-diz, a fofoca, o mexerico, a bisbilhotice são sanções poderosas e temidas, tanto mais eficazes quanto menor a comunidade; seu poder baseia-se principalmente nas possíveis deformações e amplificações da realidade. Por sua vez, a excentricidade, as acções consideradas ridículas dão origem a um outro tipo de sanção: a troça, a zombaria e o riso. A reprovação da conduta pode manifestar-se ainda através do silêncio, do olhar de censura, da careta e de outras expressões fisionómicas.

Na sociedade urbana, o anonimato, a mobilidade e os variados grupos existentes diminuem a eficácia de todos os tipos de sanções informais, criando a necessidade de outros meios de controlo social mais formais. Os controlos formais são obrigatórios para todos os indivíduos que participam num grupo, grande ou pequeno, onde são introduzidos. São formais: as leis, os decretos, e demais diplomas promulgados pelo Estado (resoluções, portarias, estatutos,…): os estatutos e regulamentos dos sindicatos, das empresas, dos clubes, das escolas e Universidades,...; os preceitos da Igreja.

A expressão “controlo social” geralmente é caracterizada nos dicionários como circunscrevendo uma temática relativamente autónoma de pesquisa, voltada para o estudo do “conjunto dos recursos materiais e simbólicos de que uma sociedade dispõe para assegurar a conformidade do comportamento de seus membros a um conjunto de regras e princípios prescritos e sancionados” (Boudon; Bourricaud, in ALVAREZ, 2004:169).
http://www.scielo.br/pdf/spp/v18n1/22239.pdf

O controlo social já estava implícito na obra de Durkheim, apesar de ter desenvolvido outros conceitos, como anomia, solidariedade mecânica e orgânica, etc. Se o crime “ofende certos sentimentos coletivos dotados de uma energia e de uma clareza particulares” (Durkheim, ibidem), a pena é a reação colectiva que, embora aparentemente voltada para o criminoso, visa na realidade reforçar a solidariedade social entre os demais membros da sociedade e, consequentemente, garantir a integração social (...) no momento em que alguém desobedece às normas sociais e ameaça a ordem social.

Mas o termo “controlo social” ficará estabelecido pela Sociologia norte-americana para integrar os mecanismos de cooperação e de coesão voluntária da sociedade (Rothman, ibidem). Guy Rocher engloba o conjunto das sanções positivas e negativas no conceito de controlo social, afirmando ser o mesmo “o conjunto das sanções positivas e negativas a que a sociedade recorre para assegurar a conformidade das condutas aos modelos estabelecidos”.

1. Explica porque não é óbvio se um dado comportamento seja padrão ou desviante em Sociologia, apesar de aos nossos olhos nos parecer uma classificação elementar.

2. Mostra com dois exemplos do teu quotidiano que “todos nós tanto desrespeitamos regras como as seguimos, assim como também todos somos criadores de regras”.

3. Relaciona a conformidade das mulheres com o papel que lhes foi atribuído pelo poder social dominante (masculino) com a sua literacia.

4. Mostra que indivíduos habitualmente conformistas, podem assumir comportamentos tidos por desviantes em situações extremas.

5. Justifica porque o código moral é aquele que mais frequentemente nos impõe normas de conduta, relativamente às sanções impostas pelos grupos.

6. Comenta a importância relativa dos grupos apresentados no controlo social em meios rurais relativamente aos centros urbanos.

7. Comenta a violência do controlo social em MATRIX.

8. Dá dois exemplos de:
a) Sanções físicas positivas;
b) Sanções físicas negativas;
c) Sanções económicas positivas;
d) Sanções económicas negativas;
e) Sanções religiosas positivas;
f) Sanções religiosas negativas;
g) Sanções formais;
h) Sanções informais.

9. Retomando a expressão de Bertolt Brecht, discute (mínimo de 50 palavras) se te parece relativamente mais simples lutar pela definição do seu próprio estilo de vida ou aceitar um estilo de vida semelhante ao comum na sua cultura.

Bibliografia
GIDDENS, Anthony, (2000), Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
LAKATOS, Eva Maria, (1995), Sociologia Geral, Dinalivro, Lisboa.