31/03/2012

Instituições sociais

“Denominar-se-á instituição (Anstalt) uma associação cujos ordenamentos estatuídos, dentro de um domínio especificável, são impostos de modo (relativamente) eficaz a toda a acção segundo determinadas características dadas” (Weber, 2000:80).

Lakatos cita Joseph Fichter (1995:166) apresentando o conceito de instituição social: “uma estrutura relativamente permanente de padrões, papéis e relações que os indivíduos realizam segundo determinadas formas sancionadas e unificadas com o objectivo de satisfazer necessidades sociais básicas”.

As características das instituições são:
- Finalidade ou Função. Satisfação das necessidades sociais.
- Conteúdo relativamente permanente. Padrões, papéis e relações entre indivíduos da mesma cultura.
- Serem estruturadas. Há coesão entre os componentes, em virtude de combinações estruturais de padrões de comportamento.
- Estrutura unificada. Cada instituição, apesar de não ser completamente separada das demais, funciona como uma unidade.
- Possuem valores. Código de conduta.

Todas as instituições devem ter função e estrutura. Função é a meta ou propósito do grupo, cujo objectivo seria regular as necessidades. A Estrutura é composta de pessoal (elementos humanos); equipamentos (aparelhagem material ou imaterial); organização (disposição do pessoal e do equipamento, observando-se uma hierarquia-autoridade e subordinação); comportamento (normas que regulam a conduta dos indivíduos).

Veja-se como exemplo a empresa industrial. Possui função, produz bens e serviços para gerar lucros; e estrutura, que se subdivide em pessoal (direcção, funcionários administrativos e operários), equipamento ((1) imóveis, máquinas e equipamentos materiais, e (2) marca e reputação (imateriais)), organização (democrática ou autocrática, centralizada ou descentralizada) e comportamentos, normas para a constituição e funcionamento, direitos e deveres regulados pelas leis vigentes e pelos estatutos.

As principais instituições sociais são a Família, a Igreja, o Estado, a Empresa e a Escola.

A Família, em geral, é considerada o fundamento básico e universal das sociedades, por se encontrar presente em todos os agrupamentos humanos. Igreja. Durkheim definiu a religião como “um sistema unificado de crenças e práticas relativas a coisas sagradas, isto é, a coisas colocadas à parte e proibidas – crenças e práticas que unem numa comunidade única todos os que as adoptam” (Lakatos, 1995, 179).

Por Estado “entender-se-á uma função institucional política, quando e na medida em que o seu quadro administrativo reclama com êxito o monopólio legítimo da coacção física para a manutenção das ordenações” (Weber, 2000:83).

Após a Revolução Industrial, a Família perde grande parte das suas funções económicas, que se transferem para uma variedade de outras organizações, como as Empresas e Estado. Só a partir de então este adquire capacidade para intervir na actividade económica.

É inútil julgarmos que educamos os nossos filhos como pretendemos. É que somos obrigados a seguir as regras que imperam no meio social em que vivemos. É a opinião quem nos impõe essas regras, e a opinião é uma força moral cujo poder constrangedor não é inferior ao das coisas físicas. (...) A Escola é o sistema educativo de um país numa época. Cada povo tem o seu, como tem o seu sistema moral, religioso, económico, etc. (Durkheim, 2001: 32).

1. Justifique a perda de importância da Igreja enquanto instituição, na actualidade, referindo:
a) A globalização;
b) A escolarização; e
c) A urbanização.

2. Verifique se o namoro é uma instituição:
a) Na perspectiva Weber;
b) Na perspectiva de Fichter.

Sugestão de Leitura sobre o namoro
Qual é a função do namoro? A resposta parece variar em função das gerações inquiridas. Para as avós qualquer contacto era interdito até à noite do casamento. Hoje os parceiros conhecem-se antes. Não será esta a finalidade/função do namoro?

Nas gerações mais velhas, sobretudo para as avós (...) os namoros são descritos como amizades onde a aproximação entre os protagonistas repousa sobre um compromisso pouco rígido, e onde não parece haver lugar para grandes experimentações ou contactos físicos; (...) enquanto nas gerações mais velhas prevalece uma moral sexual mais conservadora, institucionalizadora e defensora do puritanismo sexual, os jovens transportam uma nova ética, mais experimentalista e fragmentada, “onde há lugar para ligações fugazes e românticas; experiências pré-matrimoniais e coabitacionais; iniciações sexuais precoces e relações heterogâmicas; sendo, finalmente, observável uma relativa tolerância a diversas formas de sexualidade socialmente ou ideologicamente consideradas mais ‘periféricas’”.
Fonte: http://www.aps.pt/vicongresso/pdfs/438.pdf

20/03/2012

Estudos e Representações

Quem utiliza linguagem vulgar nunca refere esse aspecto. Só o método científico sente necessidade de precisar exactamente o  seu objecto de estudo: as representações. Assim, o título da imagem B pode parecer uma armadilha ;)  [Clique nas imagens para verificar a sua origem]







Realmente não foi armadilha... foi quase igual à questão 6 deste post, respondida aqui.

06/03/2012

Ordem social e controlo social

  • "Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem."
    Bertolt Brecht, escritor/ poeta/dramaturgo alemão (1898-1956)
Toda a gente sabe, ou pensa que sabe, quem são os indivíduos desviantes - pessoas que se recusam a viver de acordo, com as regras pelas quais se rege maioria da população. São criminosos violentos, drogados ou marginais, gente que não se encaixa no que a maior parte das pessoas define como padrões normais de comportamento aceitável. Contudo, as coisas não são exactamente o que parecem – uma lição que se aprende com frequência em Sociologia, porque esta nos incentiva a olhar para além do óbvio.

As nossas actividades desmoronar-se-iam se não cumpríssemos as regras que definem certos tipos de comportamento como correctos em determinados contextos e outros como inapropriados. Um comportamento civilizado na estrada, por exemplo, seria impossível se os condutores não respeitassem a regra de conduzir à direita. Poderá pensar-se que aqui não há desviantes, a não ser em caso de condução negligente ou sob influência do álcool. Contudo, se pensa desta forma está enganado. A maioria dos condutores é constituída não apenas por indivíduos desviantes mas por criminosos também, na medida em que a maioria das pessoas, sempre que a polícia de trânsito não está à vista, conduz bem acima dos limites de velocidade.

Todos nós tanto desrespeitamos regras como as seguimos; todos somos também criadores de regras. Os condutores podem não circular a 120 km/h nas autoestradas nem a 100 km/h nas vias rápidas, mas a maioria dos condutores não ultrapassa os 140 km/h nas primeiras, nem os 120 km/h nas segundas, e tem tendência a reduzir a velocidade sempre que atravessam áreas urbanas.

Ninguém quebra todas as regras, assim como ninguém as respeita todas. Mesmo indivíduos que estão totalmente à margem da sociedade respeitável, como os assaltantes de bancos, seguirão as regras dos grupos a que pertencem.

O estudo do comportamento desviante é das áreas mais intrigantes e complexas da Sociologia, ensinando-nos que ninguém é tão normal quanto gosta de pensar. Ajuda-nos igualmente a perceber que aquelas pessoas cujo comportamento pode parecer estranho ou incompreensível, são seres racionais quando compreendemos a razão dos seus actos.

O desvio, tal como a conformidade às normas e regras sociais dependem do poder social para definir e impor os padrões de conduta, pelo que o desvio nunca poderá ser definido sem nos questionarmos: “as regras de quem?”.

Uma acção que nos parece criminosa num dado contexto, poderá noutra situação parecer heróica [ver Jodie Foster, em A Estranha em Mim].

O desvio pode ser definido como uma inconformidade em relação a determinado conjunto de normas aceite por um número significativo de pessoas. As normas são acompanhadas por sanções que promovem a conformidade (sanções positivas) e castigam a não conformidade (sanções negativas).

O desvio é o conjunto de comportamentos e de situações que os membros de um grupo consideram não conformes às suas expectativas, normas ou valores e que, por isso, correm o risco de suscitar condenação e sanções da sua parte. (Boudon, 1995:380) A definição de comportamento desviante pressupõe a existência de um universo normativo, estabelecendo os comportamentos padrão no mesmo grupo.

É habitual distinguir entre sanções físicas, sanções económicas, sanções religiosas e sanções especificamente sociais, que são mais diversas e numerosas. O grupo de amigos, a família e a pequena comunidade empregam fundamentalmente sanções sociais, que variam com a gravidade da falta.

O falatório, o diz-que-diz, a fofoca, o mexerico, a bisbilhotice são sanções poderosas e temidas, tanto mais eficazes quanto menor a comunidade; seu poder baseia-se principalmente nas possíveis deformações e amplificações da realidade. Por sua vez, a excentricidade, as acções consideradas ridículas dão origem a um outro tipo de sanção: a troça, a zombaria e o riso. A reprovação da conduta pode manifestar-se ainda através do silêncio, do olhar de censura, da careta e de outras expressões fisionómicas.

Na sociedade urbana, o anonimato, a mobilidade e os variados grupos existentes diminuem a eficácia de todos os tipos de sanções informais, criando a necessidade de outros meios de controlo social mais formais. Os controlos formais são obrigatórios para todos os indivíduos que participam num grupo, grande ou pequeno, onde são introduzidos. São formais: as leis, os decretos, e demais diplomas promulgados pelo Estado (resoluções, portarias, estatutos,…): os estatutos e regulamentos dos sindicatos, das empresas, dos clubes, das escolas e Universidades,...; os preceitos da Igreja.

A expressão “controlo social” geralmente é caracterizada nos dicionários como circunscrevendo uma temática relativamente autónoma de pesquisa, voltada para o estudo do “conjunto dos recursos materiais e simbólicos de que uma sociedade dispõe para assegurar a conformidade do comportamento de seus membros a um conjunto de regras e princípios prescritos e sancionados” (Boudon; Bourricaud, in ALVAREZ, 2004:169).
http://www.scielo.br/pdf/spp/v18n1/22239.pdf

O controlo social já estava implícito na obra de Durkheim, apesar de ter desenvolvido outros conceitos, como anomia, solidariedade mecânica e orgânica, etc. Se o crime “ofende certos sentimentos coletivos dotados de uma energia e de uma clareza particulares” (Durkheim, ibidem), a pena é a reação colectiva que, embora aparentemente voltada para o criminoso, visa na realidade reforçar a solidariedade social entre os demais membros da sociedade e, consequentemente, garantir a integração social (...) no momento em que alguém desobedece às normas sociais e ameaça a ordem social.

Mas o termo “controlo social” ficará estabelecido pela Sociologia norte-americana para integrar os mecanismos de cooperação e de coesão voluntária da sociedade (Rothman, ibidem). Guy Rocher engloba o conjunto das sanções positivas e negativas no conceito de controlo social, afirmando ser o mesmo “o conjunto das sanções positivas e negativas a que a sociedade recorre para assegurar a conformidade das condutas aos modelos estabelecidos”.

1. Explica porque não é óbvio se um dado comportamento seja padrão ou desviante em Sociologia, apesar de aos nossos olhos nos parecer uma classificação elementar.

2. Mostra com dois exemplos do teu quotidiano que “todos nós tanto desrespeitamos regras como as seguimos, assim como também todos somos criadores de regras”.

3. Relaciona a conformidade das mulheres com o papel que lhes foi atribuído pelo poder social dominante (masculino) com a sua literacia.

4. Mostra que indivíduos habitualmente conformistas, podem assumir comportamentos tidos por desviantes em situações extremas.

5. Justifica porque o código moral é aquele que mais frequentemente nos impõe normas de conduta, relativamente às sanções impostas pelos grupos.

6. Comenta a importância relativa dos grupos apresentados no controlo social em meios rurais relativamente aos centros urbanos.

7. Comenta a violência do controlo social em MATRIX.

8. Dá dois exemplos de:
a) Sanções físicas positivas;
b) Sanções físicas negativas;
c) Sanções económicas positivas;
d) Sanções económicas negativas;
e) Sanções religiosas positivas;
f) Sanções religiosas negativas;
g) Sanções formais;
h) Sanções informais.

9. Retomando a expressão de Bertolt Brecht, discute (mínimo de 50 palavras) se te parece relativamente mais simples lutar pela definição do seu próprio estilo de vida ou aceitar um estilo de vida semelhante ao comum na sua cultura.

Bibliografia
GIDDENS, Anthony, (2000), Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
LAKATOS, Eva Maria, (1995), Sociologia Geral, Dinalivro, Lisboa.

01/03/2012

Papel social e Estatuto social em acção

  • Os alunos não estão “naturalmente” dispostos a fazer o papel de aluno. Dito de outra forma, para começar, a situação escolar é definida pelos alunos como uma situação, não de hostilidade, mas de resistência ao professor. Isto significa que eles não escutam e nem trabalham espontaneamente, eles se aborrecem ou fazem outra coisa. Lá, na primeira aula, os alunos me testaram, eles queriam saber o que eu valia. Começaram então a conversar, a rir (...) É extremamente cansativo dar aula já que é necessário a toda hora dar tarefas, seduzir, ameaçar, falar (...) Por exemplo, quando a gente fala “peguem os vossos cadernos”, são cinco minutos de bagunças porque eles vão deixar cair suas pastas, alguns terão esquecido seus cadernos, outros não terão lápis. Aprendi que para uma aula que dura uma hora, só se aproveitam uns vinte minutos, o resto do tempo serve para “botar ordem”, para dar orientações. (...) Talvez eu pudesse dizer que sentia dificuldade [em ensinar sem stress] porque meu status social (estatuto social) me permitia dizê-lo sem ter o sentimento de vergonha. Pode ser mais duro para um professor iniciante. (...) Mas numa sala de professores, nunca se fala disso, todo mundo parece ser um bom professor. Mesmo que a gente visse colegas chorando, ou outros que nunca vinham, que passavam pelo corredor.
    Entrevista a François Dubet, sociólogo francês
Os extractos transcritos da entrevista a François Dubet deixam claro que alunos e professores têm o seu ofício, interagindo representando os respectivos papéis sociais, que determinam os seus direitos, deveres, e funções.

  • (...) o bom aluno foi definido fundamentalmente como sendo portador em primeiro lugar de um conjunto de qualidades morais necessárias à vida escolar e secundariamente pelas suas qualidades intelectuais. São as qualidades morais, a atitude do aluno face ao trabalho escolar e aos professores que segundo estes determinam a sua adaptação escolar, num quadro de passividade e conformismo e são também elas que consequentemente facilitam ao professor o exercício da sua autoridade. Em contrapartida o mau aluno é definido pelo seu desinteresse escolar, inaptidão intelectuaI e indisciplina, qualidades que se oferecem como o reverso da medalha do bom aluno.
    Resumindo, «com boa vontade e muita atenção toda a criança se pode tornar um bom aluno».
    Mollo, S., (1979), A escola na sociedade, Edições 70, Lisboa.
Ao bom aluno corresponde o estatuto do social do bom, como ao mau corresponde o estatuto do mau. Isto é, de bons e maus alunos temos expectativas diferentes. O estatuto social determina modelos de comportamento, que indicam o que se pode esperar do individuo em cada situação (representando o seu papel) e da sociedade relativamente a ele (somos todos actores). Assim, a cada papel corresponde o respectivo estatuto, num jogo de codificação dos padrões de comportamento e de orientação das expectativas sociais que conferem previsibilidade às interacções sociais.

Pensando no conjunto da sociedade poderemos redefinir estatuto social como o conjunto de posições relativas a um indivíduo, correspondente à multiplicidade de papéis que desempenha. Podemos ser simultaneamente, homens, professores do ensino secundário, estudantes em regime de e-learning, filhos, parceiros, eleitores, sócios do Benfica, etc. Cada posição representa os seus níveis de prestígio e de poder, envolvendo compensações diferentes.

Os grupos privilegiados em termos de status incluem pessoas com grande prestígio na ordem social: bispos e juízes, por exemplo, na ordem social portuguesa. Os grupos sociais são conjuntos de indivíduos que interagem de modo sistemático uns com os outros. Podem ir de associações muito pequenas a organizações em grande escala ou sociedades. Independentemente do seu tamanho, uma das características de um grupo é a de os seus membros terem consciência de uma identidade comum. Grande parte da vida é passada em actividades de grupo; nas sociedades modernas, a maioria das pessoas pertence a diferentes e numerosos tipos de grupo (veja a Classificação de Georges GURVITCH).

Vivemos numa sociedade onde os recursos económicos, culturais, sociais e simbólicos se encontram inequitativamente distribuídos. Os atributos impostos ao indivíduo pela natureza definem o respectivo estatuto atribuído (homem, português, branco, etc.). A escola é o agente de socialização por excelência destinado aos inconformistas, que investindo no seu futuro, poderão ocupar posições melhor remuneradas. Para o exercício de uma profissão especializada será necessário adquirir uma preparação específica previamente. Ao desempenho desses papéis, consequência de sucessivas acções desenvolvidas pelos indivíduos corresponde o estatuto adquirido (professor, parceiro, etc.).

Os indivíduos adquirem durante a socialização primária a cultura do seu grupo social através da família. Os inconformistas tentarão socializar-se de forma autónoma em culturas socialmente mais valorizadas que as dos seus grupos de pertença. Encontram-se mobilizados para adquirir a cultura do grupo em que pretendem integrar-se, designado grupo de referência (vg., querer ser médico). O indivíduo que aspira a ser médico adoptará estilos de vida, padrões de linguagem e comportamentos caracterizadores do respectivo grupo de referência. Provavelmente os seus amigos não irão gostar que ele fale tão frequentemente de doenças e descreva a respectiva sintomatologia. Este processo de adopção dos padrões de comportamento de um grupo de referência designa-se socialização por antecipação. Atrás utilizou-se o termo auto-socialização com o mesmo significado, embora os sociólogos não gostem desta expressão, porque enfatiza o lado autónomo e individual dos processos de socialização.

Recursos


1. "Identificar o aluno com o aprendente é impedi-lo de pensar o papel que os adultos lhe atribuem e o modo como o estudante vive esse papel; é esquecer que o "ofício" de aluno é consignado às crianças e aos adolescentes como um ofício "estatutário", do mesmo modo que um adulto é mobilizado pelo Estado para se apresentar perante o júri, ou para ingressar no exército. Juridicamente, o trabalho escolar está mais próximo dos trabalhos forçados que de uma profissão livremente escolhida. Uma fracção dos alunos faz da necessidade virtude e realiza, sem dificuldade, o seu percurso escolar; outros resistem abertamente e desencadeiam a fúria dos que lhe "querem bem"; outros, ainda, fingem aderir às regras do jogo".
Philippe Perrenoud, Ofício de aluno e sentido do trabalho escolar

a) Confirma a tese do ofício "estatutário" de aluno consultando os artº 90º e 91º (p. 55) do Regulamento Interno. * Backup
b) Explica porque uma fracção dos jovens “fingem aderir às regras do jogo”, utilizando a metáfora do ofício e os conceitos sociológicos apropriados.
c) Identifica três grupos sociais no texto e classifica-os quanto ao conteúdo, amplitude e duração utilizando a classificação de GURVITCH.

2. No início da entrevista de François Dubet (primeiras 5 linhas) este sociólogo francês refere como motivo para ter experimentado ser professor, a sua desconfiança relativamente a “um tipo de encenação um pouco dramática” que os professores fazem do seu trabalho.
Comenta esta encenação utilizando conceitos sociológicos.

3. "No final das contas, achei que a descrição que os professores entrevistados faziam na pesquisa era bastante correcta. Realmente, a relação escolar é a priori desregulada. Cada vez que se entra na sala, é preciso reconstruir a relação: com este tipo de alunos, ela nunca se torna rotina. É cansativa, cada vez, é preciso lembrar as regras do jogo; cada vez, é preciso reinteressá-los, cada vez, é preciso ameaçar, cada vez, é preciso recompensar (...)"
Entrevista de François Dubet (pouco antes do meio)
Comenta a multiplicidade de papéis desempenhados por Dubet (investigador e professor) do ponto de vista:
a) do necessário distanciamento que a Sociologia exige ao investigador;
b) da necessidade que o investigador tem de compreensão da realidade para melhor a explicar.

4. "Talvez eu pudesse dizer que sentia dificuldade [em ensinar sem stress] porque meu status social me permitia dizê-lo sem ter o sentimento de vergonha. Pode ser mais duro para um professor iniciante".
Entrevista de François Dubet
Explicita o conceito de estatuto adquirido, comentando Dubet.

*5. O estatuto social codifica padrões de comportamento.
a) Indica cinco padrões de comportamento associados aos bons alunos, partindo da amostra do livro Ser Bom Aluno, ‘Bora Lá?
b) Indica cinco comportamentos esperados de um bom professor, utilizando os testemunhos recolhidos por FELOUZIS.

*6. Distingue as representações sociais do bom professor das expectativas do bom professor.

7. "(...) os professores mais eficientes são em geral aqueles que acreditam que os alunos podem progredir, aqueles que têm confiança nos alunos. Os mais eficientes são também professores que vêem os alunos como eles são e não como eles deveriam ser".
Final da Entrevista de François Dubet
Relacionando a argumentação de Dubet com a de Mollo, a socialização por antecipação será uma (1) decisão individual ou uma (2) resultante da interacção social? Justifica.

(*)NOTA: Esta questão é particularmente útil para explicitar melhor os objectivos do Trabalho Anual.

O que fazemos com os questionários e as entrevistas?

Depois de definidas as hipóteses deverá ser redigido um questionário e/ou um guião de entrevistas. O ideal será aproveitar todo o 2º Período para aplicar questionários e/ou realizar entrevistas, ficando o 3º período apenas para a apresentação oral do trabalho.

Mas o que fazemos depois com os questionários e as entrevistas?

No mínimo podem transcrever umas expressões que sejam significativas pela sua expressividade, e arrumá-las de modo a tentarem explicar as vossas hipóteses, como se faz em muitos livros como este. Até têm uma boa desculpa para não dispor de uma base de dados mais completa, que permita descobrir mais "regularidades sociais"... o tempo foi escasso...

Evidentemente, se conseguirem demonstrar que seguiram as etapas do processo científico de investigação (realizando leituras, desenvolvendo a problemática, construindo um modelo de análise), isso tem um valor muito superior à mera aplicação de técnicas.

28/02/2012

Interacção social – O modelo dramatúrgico

Na sua qualidade de actuantes, os indivíduos preocupam-se em manter a impressão de que cumprem as numerosas normas pelas quais são julgados os seus actos. Como essas normas são inúmeras e omnipresentes, os actores vivem muito mais do que se poderia pensar num universo moral (constrangidos pela sociedade). Mas como actuantes, os indivíduos não estão preocupados com o problema moral de cumprir essas normas, mas com o problema amoral de construir a impressão convincente (gestão de impressões) de que satisfazem as ditas normas (...) Enquanto actuantes somos comerciantes da moralidade, escondidos por trás das máscaras (Goffman).

A Representação do Eu na Vida Quotidiana (The Presentation of Self in Everyday Life, (1969), no original em inglês) é, talvez, o mais importante livro de Erving Goffman (1922-1982). Suas pesquisas incidiram sobre as interacções face-a-face da vida quotidiana, construindo de um modo muito característico os seus recursos conceptuais, baseando-se em metáforas teatrais (palco, público, papel, bastidores, mise en scène, etc.).

Prioritariamente interessou-se pelos encontros correntes da vida quotidiana, por aquilo a que chamou a ordem de interacção, apreendida como um domínio da vida social analisável de forma autónoma. O conceito de papel social, por exemplo, tem origem na cena teatral. Ser professor consiste em actuar de um modo específico em relação aos alunos. Goffman concebe a vida social como se fosse algo que vai sendo representado num palco por actores – ou em muitos palcos, já que os nossos actos dependem dos papéis que desempenhamos em cada momento. Esta abordagem é por vezes apelidada de modelo dramatúrgico. As pessoas são sensíveis à forma como são vistas pelos outros, usando muitas formas de gestão de impressões para assegurar que os outros reagem da forma desejada. Embora isto possa ser feito de forma consciente e premeditada, está usualmente entre as coisas que fazemos sem disso termos consciência. Por exemplo, no emprego as pessoas sentem-se obrigadas a vestir-se – ou são mesmo obrigadas a vestir-se – mais formalmente do que quando se encontram com os amigos.

Goffman sugeriu que grande parte da vida pode ser divida em regiões da frente e da retaguarda. As regiões da frente, ou fachada, são situações sociais ou encontros em que os indivíduos desempenham papéis formais – são “actores em cena”. O trabalho, a aula, o julgamento são situações onde mesmo que dois indivíduos se detestem mutuamente, são obrigados a forjar uma imagem apresentável perante os outros.

As regiões da retaguarda ou bastidores são onde armazenamos os adereços e os indivíduos se preparam para a interacção em contextos mais formais. Analogamente com os bastidores de um teatro, as pessoas podem descansar e libertar as emoções e estilos de comportamento que ocultam enquanto estão no palco. Os bastidores permitem “profanidade, comentários livres de índole sexual, beliscões, uso de roupas informais, posturas desengonçadas, utilização de dialectos e gírias, murmúrios e gritos, palavras agressivas e gracejos, desconsideração pelos outros em actos menores mas potencialmente simbólicos, sussurrar, assobiar, mastigar, mordiscar, vomitar e arrotar” (Goffman, 1969). Uma empregada de mesa pode ser a imagem de serenidade quando atende os clientes e ser agressiva e barulhenta para lá das portas da cozinha do restaurante. Há provavelmente poucos clientes que aprovariam os restaurantes se pudessem ver tudo o que se passa nas cozinhas.

1. Partindo da metáfora teatral, constrói os seguintes conceitos da sociologia goffmaniana:
a) representação;
b) personagem;
c) actor;
d) cena;
e) máscara;
f) papel;
g) fachada;
h) cenário/palco;
i) bastidores.

2. Em Goffman abunda o espaço cénico, mas é menosprezado o tempo histórico das interacções:
  • Incorporando o espaço amplamente em sua reflexão teórica sobre as interações, o autor abre a possibilidade de questionarmos a abrangência teórica de sua abordagem. Suas concepções seriam aplicáveis apenas ao "nosso mundo urbano secular" (Goffman, [1956] 1967, p. 47)? Mas o que dizer dos dados etnográficos provindos de contextos sócio-históricos diferenciados, não apenas ocidentais? http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092008000300014
Aponta motivos para a Sociologia sentir necessidade de construir outros instrumentos conceptuais que expliquem os factos sociais.

3. No quotidiano, nas interacções de face-a-face, o nosso corpo desempenha um papel crucial na forma como nos relacionamos com os outros. Um palco com, importância especial para cuidarmos do corpo é o consultório.
  • Como «regulador» da interacção [na consulta médica] há conjuntos de regras sociais, ou rituais, que são seguidos pelos indivíduos e que por eles foram interiorizados, a maior parte das vezes sem terem disso consciência. E porque todos os indivíduos representam em diferentes palcos durante a sua vida, desempenhando em cada palco diferentes papéis, somos orientados por diferentes regras que nos dizem como devemos actuar conforme as diferentes situações sociais em que nos situamos, segundo o nosso género, idade, cultura, profissão, etc.
    Mas esta afirmação faz então prever que os actores que se encontram em palco «falam» a mesma linguagem, senão seria uma representação do absurdo, do nonsense, não se poderia chamar a esse encontro uma interacção.
    A consulta médica e as estratégias de negociação de um corpo saudável
Justifica porque se afirma que «gostar e ter confiança no seu médico equivale a meia cura».

Bibliografia
ELIAS, Norbet, (1999), Introdução à Sociologia, Edições 70, Lisboa.

GIDDENS, Anthony, (2000), Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092008000300014

SAMPAIO, Maria Leonor, A consulta médica e as estratégias de negociação de um corpo saudável

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Gestão de Impressões

Representação do self

Interacção social - A desatenção civil

  • Olhar fixamente para outra pessoa pode ser considerado como um sinal de hostilidade – ou, em certas ocasiões, de amor. Na maioria das interacções humanas o contacto visual é bastante fugaz.
Interacção social é a acção social, mutuamente orientada, de dois ou mais indivíduos em contacto. Distingue-se da mera interestimulação em virtude envolver significados e expectativas em relação às acções de outras pessoas. Podemos dizer que a interacção é a reciprocidade de acções sociais.
http://www.prof2000.pt/users/dicsoc/soc_i.html#interaccao

Duas pessoas aproximam-se e cruzam-se numa cidade. O que poderia ser mais trivial e desinteressante? Tal evento pode acontecer milhões de vezes por dia mesmo numa única área urbana. No entanto algo ocorre aqui de significativo em termos de interacção social. A "desatenção" demonstrada não é indiferença. É, pelo contrário, uma demonstração cuidadosamente monitorada do que pode ser chamado de estranhamento polido. Conforme as duas pessoas se aproximam uma da outra, cada uma rapidamente perscruta o rosto e a indumentária da outra, desviando o olhar quando se cruzam — Goffman chama isto de "abaixar os faróis" mútuos. O olhar concede reconhecimento do outro como um agente e como um conhecido potencial. Fixar os olhos no outro apenas brevemente e depois olhar para frente enquanto ambos se cruzam vincula tal atitude a uma reafirmação implícita de ausência de intenção hostil.

A desatenção civil é o tipo mais básico de compromissos face-a-face envolvidos nos encontros com estranhos da modernidade. Ela envolve não apenas o uso do rosto, mas o emprego subtil da postura e posicionamento corporais que transmitem a mensagem: "você pode confiar que estou sem intenções hostis" — na rua, edifícios públicos, comboio ou autocarro, ou em reuniões cerimoniais, festas ou outras ocasiões. A desatenção civil é confiança como "ruído de fundo" — não como uma colecção fortuita de sons, mas como ritmos sociais cuidadosamente comedidos e controlados.

A desatenção civil é o processo pelo qual indivíduos que estão no mesmo contexto físico de interacção demonstram ter consciência da presença de outros, sem que sejam ameaçadores ou excessivamente atenciosos.

Em muitas situações sociais, envolvemo-nos com outros naquilo que Goffman chamou interacção desfocalizada. A interacção desfocalizada tem lugar sempre que, num dado contexto os indivíduos mostrem ter consciência mútua da presença dos outros. Isto acontece habitualmente quando um grande número de pessoas se reúne, seja numa avenida movimentada, num teatro sobrelotado ou numa festa. Quando indivíduos estão na presença uns dos outros, mesmo que não falem entre si, mantêm uma constante comunicação não verbal, através da sua postura corporal, facial e gestual.

A interacção focalizada ocorre quando os indivíduos prestam uma atenção directa ao que o outro diz ou faz. Goffman chama encontro à unidade de interacção focalizada. Grande parte da nossa vida quotidiana consiste em encontros com outros indivíduos – familiares, amigos e colegas.

1. “Os brancos no sul dos Estados Unidos eram conhecidos no passado por fixar o olhar nos negros em ambientes públicos, reflectindo uma rejeição dos direitos dos negros de participarem de certas formas ortodoxas da interacção quotidiana com brancos”. (Goffman)
Refere a importância da desatenção civil para que cada um consiga fazer a sua vida.

2. Distingue a interacção focalizada da não focalizada e apresenta alguns exemplos.

3. Refere a importância do corpo: [TEXTO]
a) num contexto normal (de norma) de interacção, explicitando o conceito de estigma (*);
b) imaginando um contexto de speed dating. (**)

4. Justifica a diferença quando se encontram no elevador estranhos vs. amigos.


(*) Os gregos, que tinham bastante conhecimento de recursos visuais, criaram o termo estigma para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava. Os sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e avisavam que o portador era um escravo, um criminoso ou traidor uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que devia ser evitada; especialmente em lugares públicos. (Goffman, 1891:5)

(**) Depois de 2000, talvez impulsionadas pelo seu retrato em séries como “O Sexo e a Cidade”, como algo que as fez pessoas glamorosas, os defensores do speed dating argumentam que este economiza tempo. 3 minutos não permitem conhecer ninguém em profundidade, mas serão muito mais que o suficiente para concluir se existe “química” e decidir se são romanticamente compatíveis. Devido à curta duração dos eventos, a decisão é independente de variáveis como a religião, a educação e o rendimento (Kurzban:242). A ideia é que “em alguma parte deste mundo de 7 biliões vive a pessoa com melhor aspecto (best-looking), mais rica, mais inteligente, mais engraçada, mais gentil, que se comprometerá consigo” (Pinker, in Kurzban:228).
Kurzban, R., Weeden, J., (2005), Evolution and Human Behavior, University of Pennsylvania.
http://en.wikipedia.org/wiki/Speed_dating


GIDDENS, Anthony, (1992), As Consequências da Modernidade, Celta Editora, Oeiras.

GIDDENS, Anthony, (2000), Sociologia, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.