20/10/2011

Representação do nativo digital

Frequentemente, nas conversas do quotidiano os jovens surgem melhor qualificados para os meios digitais que os adultos. O sociólogo precisa de desconstruir as representações sociais para poder fazer ciência.

Marc Prensky construiu o conceito do nativo digital em oposição aos imigrantes digitais.

Um relatório (p. 42) recente da EU KIDS ONLINE afirma que a pretensa superioridade dos nativos digitais é um mito.


1. Comente o distanciamento entre as expectativas dos alunos e as exigências dos professores, utilizando as representações de "nativos" e de "imigrantes" digitais (Marc Prensky).

2. Observe como algumas das ideias que utilizou na questão anterior, não passam de mitos, segundo o Relatório da EU KIDS ONLINE. Refira alguns destes mitos.

3. Refira o papel da estatística na construção do conhecimento científico.

4. Verifique que as representações de "nativos" e de "imigrantes" digitais, apesar de poderem conduzir a alguns erros, têm interesse, particularmente porque ajudam a compreender a realidade e a formular hipóteses, a testar posteriomente.

NOTA: No caso de ter dificuldade a ler em inglês, em vez do Relatório acima referido, utilize o E-Genetation.

16/10/2011

Rankings de Escolas

Constroem-se estatísticas e ordenam-se as escolas com base nas classificações de exame dos estudantes. Constroem-se gráficos coloridos que castigam sempre o interior relativamente ao litoral. Aparecem sempre as mesmas escolas no início e no fim das listas. E se fosse possível durante um ano os alunos das piores escolas irem estudar nas melhores, enquanto os das melhores estudariam nas piores. Como seriam os rankings desse ano? Afinal o que medem os rankings de escola?

1. Considera a classificação de exame um indicador pobre do trabalho dos alunos?

2. Comente a relação entre as médias de exame e a geografia. O local onde as pessoas residem dependente do seu poder de compra, reflectindo-se nas classificações escolares (observe o mapa).

3. Comente a lógica implícita no cálculo das escolas com notas de curso e de exame mais coerentes ou mais divergentes http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=2058683&page=-1

4. Cláudia Sarrico refere que origem socioeconómica tem um efeito mais severo a Matemática que em Português. Porque será?

5. Do ponto de vista de Cláudia Sarrico não faz sentido criar rankings com base nas notas dos exames. Tente explicar porque é que os jornais não seguem o conselho da especialista.

6. Refira efeitos perversos dos rankings de escolas.

7. Que interesse tem a imagem que só mostra as escolas do Concelho de Sintra?

8. Enquadre este tipo de análises nas perspectivas sociológicas estudadas.

Leitura aconselhada
"Um Olhar sobre os Rankings"
(...) considero que esse tipo de avaliação não tem muito valor, já que se insere numa actual tendência internacional de procurar medir tudo - os comportamentos humanos, as sociedades, os desempenhos -, mas à qual falta uma base científica sustentável.
Ler mais?

Um estudo em 8 escolas dos Açores: composição social e expectativas escolares

01/10/2011

Conjugando o positivismo com a sociologia compreensiva

Na perspectiva positivista, com Durkheim os factos sociais são coisas, isto é, são fenómenos em si mesmos, desligados dos sujeitos conscientes que deles têm apenas representações. Porém para Weber o sentido da acção é indispensável para compreender e explicar os fenómenos sociais, na sociologia compreensiva.

Estas duas perspectivas da Sociologia nos melhores trabalhos empíricos acabam por se revelar complementares.

Num estudo onde o número de casos seja muito reduzido, pode nem fazer sentido a construção de indicadores estatísticos, e o investigador estará condenado a tentar interpretar o significado dos escassos casos que observou, prevalecendo a sociologia compreensiva, por impossibilidade de outro tipo de análise.



Quando dispomos de dados empíricos referentes a amostras grandes, a forma prática de os interpretar passa pela construção de quadros e de gráficos que sintetizem a respectiva informação. Na sua interpretação procuramos identificar as regularidades dos fenómenos sociais, aproximando-nos da perspectiva positivista.



Os melhores estudos conjugam o positivismo com a sociologia compreensiva, pois além de disporem de dados referentes a amplas amostras que condensam em tabelas e gráficos, e também destacam expressões significativas ditas pelos inquiridos, como se pode observar no relatório da EU KIDS ONLINE.



Outro exemplo. Imagina que se pretende estudar a Sexualidade. Uma alternativa é realizar um questionário a uma amostra da população, como fez recentemente o Expresso: Afirma que 16% dizem que a crise "afetou negativamente" a sua vida sexual, particularmente entre a "classe baixa" e "média-baixa", entre outras conclusões onde a quantificação positivista transmite a sensação de exactidão.

Transpõe-se abaixo um quadro de outro estudo quantitativo que te permite reflectir sobre o modo como os pais encaram o beijo na boca pelos filhos em diferentes circunstâncias: rapaz (M)/ rapariga (F); namorando ou não; em função no habitat, da posição religiosa e da idade do filho.
Fonte: PAIS, José Machado, Família, sexualidade e religião, Análise Social, 1985.

Os números apresentam estruturas sobre as quais poderemos reflectir, utilizando a nossa experiência de vida (compreensão), mas são imagens estáticas. A sociologia compreensiva introduz o agente em acção convidando a perceber a dinâmica dos fenómenos. Exemplo: Quem acompanhou o processo de "domesticação" de que Gabriela foi vítima, poderá explicar/compreender o que sucedeu, desde que a vimos no primeiro beijo apaixonado (Capitulo 8, 14:00/16:00) até à primeira nega (Capitulo 58, 09:00/11:00)?
A sociologia compreensiva poderá parecer menos exacta, mas será certamente mais rica em detalhes e mais aberta à imaginação.

1. Tomando como referência os documentos acima, descreva num texto de 20 linhas com que objectivos os jovens utilizam a Internet, e como a utilizam.

2. Explicite como poderia desenvolver um estudo para conhecer melhor o perfil dos jovens cibernautas.

3. Fundamente três conclusões sobre o beijo com base no Quadro de José Machado Pais.

4. Em que medida as cenas de filmes/novelas poderão constituir material interessante do ponto de vista da sociologia compreensiva?

27/09/2011

Fenómeno Social Total

O conceito de fenómeno social total foi definido pelo antropólogo francês Marcel Mauss:

  • Nestes fenómenos sociais totais, como propomos chamar-lhes, exprimem-se ao mesmo tempo, e de uma só vez, todas as espécies de instituições: religiosas, jurídicas e morais – e estas políticas e morais ao mesmo tempo; económicas – e estas supõem formas particulares da produção e do consumo (Mauss, 2001: 52).
Quer dizer, os diferentes tabuleiros onde se desenrolam as dinâmicas sociais não afirmam qualquer carácter de incomunicabilidade entre áreas científicas. Pelo contrário, a construção de uma visão de conjunto sobre o real-social implica a partilha de perspectivas e de específicos ângulos de observação do mundo social. O esquecimento, deliberado ou involuntário, consciente ou inconsciente, dos pontos de contacto e das áreas de sobreposição entre diferentes ciências sociais – que, não esqueçamos, abordam uma única (e una) realidade social – fundamenta, dessa forma, o nosso propósito de chamar atenção para o facto de qualquer análise “completa” de um fenómeno humano requerer que se convoquem as múltiplas ciências sociais nas quais arrumámos os saberes académicos por uma questão de comodidade. A aprendizagem das ciências sociais faz-se por disciplinas, que correspondem a ciências (partes do conhecimento).

Logicamente, quando se estudam os fenómenos humanos, será necessário reunir as diversas ciências que contribuem para a sua compreensão. A esta associação de contributos chamamos interdisciplinaridade.


Para clarificar melhor os conceitos, apresentam-se dois exemplos de fenómenos sociais totais: o desemprego e a escola.

O desemprego é um fenómeno social total que interessa à generalidade das Ciências Sociais. Por exemplo, interessa á:

ECONOMIA – Conhecer a taxa de desemprego, porque se for demasiado elevado indica um grande desperdício de recursos, que já são escassos;

SOCIOLOGIA – Saber que categorias e agrupamentos sociais são mais afectados pelo desemprego? Mulheres e jovens?

HISTÓRIA – Estudar como terá evoluído o desemprego no século XVIII?

PSICOLOGIA – Acompanhar os comportamentos dos desempregados.

POLÍTICA – Que influência tem o ciclo eleitoral sobre a evolução do desemprego?

DEMOGRAFIA – Como varia o desemprego com a densidade populacional? (contraste meio urbano/rural)

DIREITO – O nível de desemprego depende da legislação laboral?

(…)

A escola é outro fenómeno social total. Interessa á:

ECONOMIA – Análise das despesas do Estado e dos particulares na educação. Cálculo da rentabilidade desse investimento.

SOCIOLOGIA – Que categorias sociais são mais afectadas pelo insucesso escolar?

HISTÓRIA – Como as mulheres deixaram de ser um grupo excluído do sistema educativo, tornando-se o grupo dominante?

PSICOLOGIA – Que muda no comportamento de um indivíduo escolarizado? Bullying?

POLÍTICA – É melhor o Estado gastar os nossos impostos a construir prisões para marginais quase analfabetos ou dar formação aos cidadãos para que estes consigam ser autónomos desenvolvendo uma qualquer habilidade.

DEMOGRAFIA – Qual a distribuição etária e por género dos alunos nas diferentes áreas de estudos e por regiões do país?

DIREITO – Estudo da regulamentação jurídica da educação.

(…)
Apresentação "Escola: Realidade Social"

1. Apresente uma definição de fenómeno social total.

2. Mostre que são fenómenos sociais totais:
  • O desenvolvimento
  • A globalização
  • A urbanização
  • A dieta alimentar
  • A cultura juvenil


Referências
MAIA, Rui Leandro (Coordenador), (2002), Dicionário de Sociologia, Porto Editora, Porto. MAUSS, Marcel (2001), Ensaio sobre a dádiva, Lisboa, Edições 70, in, O conceito de desenvolvimento histórico e sua aplicabilidade heurística na Sociologia.

23/09/2011

Objecto da Sociologia

O objecto da Sociologia confunde-se com o objecto do Programa da Disciplina apresentado no vídeo abaixo como conteúdo de um manual escolar.

Em Sociologia distinguem-se duas perspectivas: 1) o positivismo levado ao extremo por Durkheim quando tomando os factos sociais como coisas, julgou que as estruturas sociais eram tão poderosas que controlavam as acções dos indivíduos e podiam ser estudadas objectivamente, como nas ciências naturais; 2) a sociologia compreensiva ou interpretativa de Weber, que resulta do seu esforço para entender como as pessoas se comportavam e de que maneira o seu comportamento influenciava a sociedade e a estrutura social. Do seu ponto de vista só compreendendo as intenções, as ideias, os valores, as convicções que motivam as pessoas se pode, realmente, saber alguma coisa.



Todos os indivíduos bebem, dormem, comem, raciocinam, e a sociedade tem interesse em que essas funções se exerçam regularmente. Ora, se estes factos fossem sociais, a Sociologia não teria um objecto que lhe fosse próprio e o seu domínio confundir-se-ia com os da biologia e da psicologia (Durkheim).

Os factos sociais são o objecto de estudo da Sociologia, segundo Émile Durkheim. O autor indica que os factos sociais apresentam características muito especiais: “consistem em maneiras de agir, de pensar e sentir exteriores ao indivíduo, e dotadas de um poder coercitivo em virtude do qual se lhe impõem”. A coerção pode ser formal ou informal, consoante as sanções se encontrem ou não protegidas por regulamentos.

A pessoa que cumpre de bom grado e com satisfação as suas obrigações sociais não sente o peso da coerção sobre o seu comportamento. Uma pessoa que gosta da sua profissão, por exemplo, geralmente cumpre os seus deveres com prazer, sem a necessidade de imposições. Mas a coerção nunca deixa de existir. Está sempre à espreita.

Os factos sociais não são fixos. As maneiras como as sociedades resolvem os problemas evoluem, mais rapidamente ou mais lentamente. É sabido que observando sociedades que encontrem em diferentes espaços geográficos, depararemos com diferentes culturas, que resolverão os problemas de modo diverso, isto é, os factos sociais são relativos.

O objectivo de Durkheim consistia em estabelecer uma relação objectivável entre os factos, tratados como coisas, no intuito de descobrir regularidades sociais.

Para Max Weber a “Sociologia designará: uma ciência que pretende compreender, interpretando-a, a acção social, e deste modo, explicá-la casualmente no seu decurso e nos seus efeitos. Por “acção” deve entender-se um comportamento humano (quer consista num fazer externo ou interno, quer num omitir ou permitir), sempre que os agentes lhe associem um sentido subjectivo. Mas deve chamar-se acção “social” aquela em que o sentido intentado pelo agente ou pelos agentes está referido ao comportamento de outros e por ele se orienta no seu decurso”.

“A acção social (inclusive a omissão ou tolerância) pode orientar-se pelo comportamento passado, presente ou esperado como futuro dos outros (vingança por ataques prévios, defesa do ataque presente, regras de defesa contra ataques futuros). Os “outros” podem ser indivíduos e conhecidos ou indeterminadamente muitos e de todo desconhecidos (o “dinheiro”, por exemplo, significa que um bem de troca que o agente admite no tráfico porque orienta a sua acção pela expectativa de que muitos outros, mas desconhecidos e indeterminados, estarão também, por seu turno, dispostos a aceitá-lo numa troca futura)”.

O desenvolvimento do conceito de tipo ideal conduz Weber a obter as respostas do em termos de comportamentos médios (o consumidor tipo ideal será aquele que consome um cabaz de compras representativo da população, com os padrões de consumo “médios”). A característica principal do tipo ideal é não existir na realidade - como o consumidor médio -, mas servir de modelo para a análise de casos concretos, realmente existentes. No entanto, somente regularidades estatísticas que correspondem ao sentido intentado compreensível de uma acção social são tipos de acção susceptíveis de compreensão. Assim, concentrando-se na interpretação do sentido da acção social dos indivíduos, uma vez que o seu sentido intentado das acções determina os valores esperados em termos comportamentais, adquire agora interesse o estudo dos desvios observados, isto é, das singularidades.

1. Verifique que a atribuição de maior interesse às regularidades sociais ou às singularidades depende da perspectiva de análise.

2. Identifique o objecto de estudo da Sociologia.

3. Caracterize os factos sociais.

4. "Nem toda a classe de acção é acção social. O comportamento intimo só é acção social quando se orienta pelo comportamento dos outros. Também não o é, por exemplo, a conduta religiosa quando permanece contemplação, oração solitária, etc. A actividade económica (de um indivíduo) só o é na medida em que toma em consideração o comportamento de terceiros".
Comente estes exemplos de Max Weber.

5. Que papel nos cabe a cada um na determinação do nosso próprio futuro?
Responda à questão acima distinguindo a perspectiva durkheimiana da perspectiva weberiana.

6. Partindo do vídeo, indique alguns temas que serão objecto de estudo em Sociologia.

  • Referências
DURKHEIM, Émile, (2004), As Regras do Método Sociológico, Editorial Presença, Barcarena.

WEBER, Max, (2000), Conceitos Sociológicos Fundamentais, Edições 70, Lisboa.

Génese da Sociologia

Neste post começamos pelo enquadramento da disciplina desde a Revolução Francesa. Seguidamente destaca-se a importância do progresso tecnológico sobre a evolução do pensamento científico e acrescenta-se uma nota breve sobre o desenvolvimento da Sociologia em Portugal.
  • Da "Dupla Revolução" a Max Weber
Desde o início que a sociologia aparecia marcada por um forte pendor racionalizante e explicativo. As intenções latentes das teorias sociológicas de fornecerem uma interpretação à crise das mundividências provocada pela Revolução Francesa e pela Revolução Industrial tinham tido como consequência a associação da nova ciência à transposição das explicações «fortes» da física para o campo das ciências sociais. Quer Comte, quer Marx, estavam preocupados pelo estatuto científico do seu saber e isso significava trazer para a sociologia a dominação epistemológica das ciências da natureza, com destaque para a física e a biologia, numa mesma procura de compreensão racionalizante que permitisse fornecer leis sobre o funcionamento da sociedade. Com Comte, a sociologia liga os seus destinos filosóficos ao positivismo e mesmo Marx (aqui pela voz de Engels), não sendo positivista, não se afasta grandemente de uma aproximação à realidade dominada pela ciência experimental, logo, por uma aceitação da legibilidade da natureza pela ciência. A importância do paradigma positivista advinha não só de ser o coração racional da própria teoria filosófica e sociológica positivista, mas também de se encontrar presente nas atitudes epistemológicas de todo o saber do século XIX e transcender assim a filosofia que lhe dava o nome. Por isso, os efeitos da sua crise são muito mais vastos e não afectam apenas aqueles que a si próprios se intitulavam positivistas. É certo que, de todas as tradições teóricas europeias com importância, a filosofia e a sociologia alemãs tinham herdado uma problemática de algum modo diversa. O peso de Kant e Hegel, da filosofia idealista como escola, deslocara as questões para a margem do positivismo e, embora a problemática deste estivesse presente, havia suficiente terreno teórico para que não tivesse o peso e o modo que tinha, por exemplo, na tradição francesa. A obra de Weber encontrava-se assim num dos momentos típicos de mutação do saber: é, ao mesmo tempo, uma síntese monumental de toda a problemática sociológica do século XIX e a verificação das suas dificuldades e impasses. Como acontecera com Kant e a gnoseologia - parte da Filosofia que trata dos fundamentos do conhecimento -, Weber deseja fundar a sociologia com bases teóricas sólidas e acaba por se lhe deparar a existência nesse corpo de saber de uma situação contraditória que impedia o fecho do sistema especulativo. É nesta dificuldade que se encontra a crise do paradigma positivista e é ao tratá-lo que Weber atinge as questões que são as dos programas científicos do século XX. Isto não significa que a obra de Weber ocupe na história da sociologia o mesmo papel que a mecânica quântica na da física, mas sim que ela defrontou problemas de ordem epistemológica que eram do mesmo tipo: a emergência em teorias fortemente explicativas e racionalizantes do problema da irredutibilidade da natureza ao saber, ou seja, a emergência da irrazão. Neste sentido, a obra de Weber é mais importante, não porque substitua interpretações causais ou deterministas por outras indeterministas, ou apenas porque criticou o positivismo, mas porque todo o seu esforço vai para dominar a irrupção do irracional e integrá-lo num discurso que permita o saber sem completamente o conseguir.
  • A evolução técnica e o desenvolvimento na sociologia do trabalho
No campo da sociologia, abundam os indícios de uma mudança na forma como se estuda a relação entre os dispositivos técnicos e os actores sociais Tudo indica que alguns autores da sociologia tendem a afastar-se tanto do determinismo tecnológico, como do construtivismo social posterior através da tese da autonomia do factor técnico. Veremos como se desenrolou este processo na sociologia do trabalho. As transformações teóricas na sociologia do trabalho estão ligadas às três fases das mudanças nas técnicas de produção: a automatização de Taylor dos anos 50 e 60 está na base das teses deterministas técnicas; a informática nos anos 70 começa a apontar para o papel do social; com a burótica e o peso dos computadores pessoais, nos 80 e 90, as teses tendem a ser mais complexas colocando em causa a dicotomia técnico-social. Até aos anos 50/60, predomina a tese neo-marxista que defende que são as condições técnicas que determinam, em grande parte, as condições sociais. Inspira-se numa leitura de Karl Marx que sublinha esta sua afirmação: “adquirindo novas forças produtivas, os homens mudam o seu modo de produção, e mudando o seu modo de produção, a maneira de ganhar a sua vida, eles mudam todas as suas relações sociais. O moinho baseado na força humana dará origem à sociedade com um soberano; o moinho a vapor, à sociedade com o capitalista industrial” (Marx, 1965: 79). No entanto, não se pode afirmar que Marx seja tão determinista pois, mais à frente, na página 99, diz: “o moinho baseado na força humana supõe uma visão do trabalho diferente da do industrial” (1965: 99). No campo da sociologia do trabalho e das organizações são conhecidos os trabalhos de Friedmann (1968) e de Pierre Naville em que se analisa as situações de trabalho num contexto do modelo Taylorista-Fordista. Para Friedmann, a evolução tecnológica provoca uma modificação negativa da organização do trabalho introduzindo a parcelarização e a perda de autonomia do operário. No caso de Naville, a lógica de um certo determinismo tecnológico não é tão clara defendendo a tese de se está perante um processo de desqualificação contraditório e complexo em que a questão técnica é apenas um factor entre vários (Assegond, 2004: 172). A partir dos anos 60, abandona-se um certo determinismo tecnológico presente em Friedmann passando a estudar-se a “questão das relações entre a modernização e a automatização e o tema da qualificação e das políticas salariais” (Assegond, 2004: 172). A partir dos anos 80, com o surgimento da informatização, as temáticas passam a centrar-se na relação entre as novas tecnologias e as transformações do trabalho a partir de dois eixos (Costa e Neves, 1995). O primeiro eixo, apoiando-se nas dificuldades vividas pelas empresas nos processos de mudança tecnológica com a adaptação às novas técnicas e a reconversão do pessoal, sublinha as transformações nas qualificações e nas competências em que saberes-fazer tradicionais desaparecem numa lógica de ruptura e resistência. Uma outra abordagem tende a considerar os aspectos de co-existência referindo a importância da cultura profissional (Aussegond, 2004: 173). Finalmente, com os anos 90, assiste-se em França a uma renovação na área da sociologia do trabalho devido à influência dos estudos sociais da tecnologia e sociedade. Na verdade, havia, até recentemente, um alheamento da sociologia do trabalho em relação aos debates presentes noutras áreas, tais como os estudos da “Ciência, Tecnologia e Sociedade”, acerca do carácter social da técnica. Muitos autores “apreendiam ainda a técnica a partir da perspectiva da mudança e dos seus efeitos mais ou menos destrutivos nos sectores de actividades estudados” (Assegond, 2004: 171). Com estas novas abordagens, inspiradas quer na sociologia do actor em rede de Latour e Callon à volta da sociologia dos usos da técnica (Akrich, 1989), quer na sociologia pragmática de Boltanski e Thévenot (1991) um novo olhar emerge pela interpretação do quotidiano através da construção de regimes de justificação adequados às observações empíricas.
  • A Sociologia em Portugal
Afirmar que a sociologia portuguesa só começou verdadeiramente após a revolução de Abril de 1974 é quase um lugar comum. Mas uma tal afirmação deve ser convenientemente temperada, se quisermos ser fiéis à especificidade dos movimentos de longa duração da história da cultura portuguesa, assim como à complexidade dos processos sócio-políticos que precederam e se desencadearam com a reinstauração da democracia em Portugal. Em boa verdade, pode dizer-se que, desde o último quartel do século XIX, o campo intelectual português foi registando ecos relativamente nítidos do movimento de eclosão das ciências sociais nos países centrais. (…) Em 1962, no Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, um discreto centro de estudos — o Gabinete de Investigações Sociais. Constituído inicialmente por um grupo de economistas com ligações ao movimento católico, o GIS alargar-se-á progressivamente a outras formações e, sob a direcção efectiva de Adérito Sedas Nunes, irá dar início à publicação da revista Análise Social, que depressa se tornou uma importante referência no campo intelectual português. Não admira que as primeiras reflexões de fôlego sobre a sociedade portuguesa, e nomeadamente as que se interrogam sobre as especificidades do nosso subdesenvolvimento, tragam marcas de algum envolvimento doutrinário dos seus autores. Na ausência de uma produção sociológica sistemática e contrastável em quadros institucionais especializados, era inevitável que certos princípios de orientação político-doutrinária se sobrepusessem, então, a objectivos analíticos característicos de campos científicos mais estruturados. Mesmo assim, datam de finais dos anos 60 alguns estudos de grande envergadura sobre a sociedade portuguesa, sendo de realçar, pela solidez da fundamentação teórica e metodológica utilizada, o conjunto de pesquisas realizadas no GIS sobre a estrutura social e sobre o sistema de ensino universitário no nosso país. A Sociologia constitui um domínio do saber que foi objecto de integração no currículo do ensino secundário em Portugal há relativamente pouco tempo. Anteriormente a 1974, praticamente nem sequer havia cursos de Sociologia no ensino superior. De facto, a análise da realidade social portuguesa só poderia ser incómoda, constituindo mesmo uma ameaça, para o regime ditatorial da época. Por isso, só a partir de 1974 é que se iniciou o primeiro curso superior de Sociologia e em 1978 surgiu a disciplina de Sociologia (como opção) no ensino secundário. Hoje, a visibilidade social da Sociologia, enquanto ciência e profissão, é muito maior. Criaram-se vários cursos de licenciatura nesta área, surgiram trabalhos de investigação (amplamente publicitados), nomeadamente sobre a sociedade portuguesa, e a inserção profissional dos sociólogos é muito diversificada, trabalhando, por exemplo, como técnicos, consultores e quadros superiores de empresas, de Autarquias e da Administração Central. A Sociologia, “tendo nascido das transformações que separaram a ordem social do Ocidente assente na industrialização dos modos de vida característicos das sociedades anteriores”, continua a ter como principal centro de interesse o mundo que resultou dessas transformações”, ou seja, o mundo contemporâneo. Ora, a complexidade das sociedades actuais – industrializadas, multiculturais e em permanente mudança – exige dos seus membros uma constante adaptação às transformações que ocorrem a todos os níveis – económico, social e cultural e, por outro lado, que sejam capazes de tomar decisões de uma forma autónoma e criativa. Num tempo em que aprendemos a desconfiar de grandes utopias, mas em que, simultaneamente, vamos sentindo os movimentos presos por conluios corporativos e consensos pragmáticos, quase sempre urdidos e outorgados em silêncio, pressente-se que muitos dos espaços em que os sociólogos actuam — nas autarquias, junto de estabelecimentos de ensino e de formação profissional, em algumas empresas, em projectos de desenvolvimento comunitário, no combate contra a pobreza, na reintegração de toxicodependentes, na reabilitação de habitats degradados, etc. — podem ser o lugar certo para o germinar de pequenas, mas mobilizadoras, utopias.

1. Justifique porque na sua fase inicial a Sociologia terá transposto para o seio esquemas de raciocínio característicos das ciências experimentais, designadamente, da física e da biologia.

2. Verifique que o aprofundamento do conceito de acção social de Weber, representa um esforço de inteligibilidade dos fenómenos sociais, baseado na racionalidade das condutas humanas.

3. Justifique o parcial fracasso de Weber observando que os indivíduos tomam em determinadas situações decisões contraditórias com os critérios de racionalidade anteriormente admitidos.

4. Justifique a emergência da sociologia pragmática na explicação dos fenómenos sociais em sociedades complexas, abertas e plurais.

5. Relacione as preocupações da sociologia do trabalho com o desenvolvimento tecnológico.

6. Comente a situação de as aulas de Sociologia não serem leccionadas por sociólogos. Que explicações terá este facto?

  • Referências
José Pacheco Pereira - http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223553986O6jRE5kd1Bt30ZG8.pdf
José Pinheiro Neves - http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/6773
Fernando Madureira Pinto - http://www.scielo.oces.mctes.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0873-65292004000300002&lng=pt&nrm=iso
Programa de Sociologia - http://www.dgidc.min-edu.pt/data/ensinosecundario/Programas/sociologia_12.pdf
NOTA 1: Os documentos foram consultados na data de publicação deste post.

NOTA 2: Recentemento foi publicado o Primeiro inquérito às práticas profissionais dos licenciados em Sociologia, interessante para conhecer o percurso formativo e profissional dos sociólogos.

14/09/2011

Sociologias especializadas

A aplicação dos modelos teóricos a objectos de estudo delimitados tem dado lugar progressivamente às Sociologias Especializadas, desenvolvendo áreas como a sociologia das religiões, do trabalho, da família, da educação, do desporto, da delinquência, do direito, da cultura, das migrações, rural, urbana e muito mais.

Qualquer trabalho de Sociologia deverá contribuir para o enriquecimento de uma Sociologias Especializada.

Para uma descrição das mesmas sugere-se este link.